
Quando a tragédia vira pauta: só em ano eleitoral o combate ao feminicídio ganha urgência
Entre mérito e oportunismo, Lula lança pacto contra a violência às mulheres após recordes de mortes
Diante de números assustadores de feminicídio no Brasil, o presidente Lula resolveu agir — ou pelo menos anunciar que vai agir. Em cerimônia no Palácio do Planalto, cercado pelos chefes dos Três Poderes, ele assinou o decreto que cria o chamado Pacto Nacional contra o Feminicídio, prometendo articulação permanente do Estado para enfrentar a violência contra mulheres e meninas.
O gesto, em si, tem peso e merece reconhecimento. Afinal, falar de feminicídio é falar de uma tragédia diária: quatro mulheres assassinadas por dia, recordes históricos e um país que falha repetidamente em proteger quem mais precisa. O pacto prevê medidas importantes, como o fortalecimento das redes de atendimento, mais agilidade nas medidas protetivas, responsabilização de agressores e ações educativas para enfrentar o machismo estrutural.
Mérito existe — mas o atraso grita
O problema é o contexto. O anúncio chega tarde e, coincidentemente, em pleno ano eleitoral. O feminicídio não explodiu ontem. Os alertas vêm de anos, os dados são públicos, as estatísticas sangram desde muito antes do calendário político entrar em contagem regressiva.
Fica difícil ignorar a ironia: só depois do recorde de mortes e da pressão social crescente o governo resolve transformar o combate à violência de gênero em prioridade nacional, com discursos fortes, frases de impacto e fotos oficiais.
Discurso bonito, realidade dura
Lula convocou os homens a agir, afirmou que não basta “não ser agressor” e falou em criar uma nova civilização baseada no respeito. Palavras corretas, necessárias e até inspiradoras. Mas para milhares de mulheres que já pediram ajuda e não foram ouvidas, o problema nunca foi a falta de discurso, e sim a ausência do Estado quando a ameaça batia à porta.
Enquanto o pacto promete monitoramento, orçamento e integração entre Executivo, Legislativo e Judiciário, a realidade segue cruel: medidas protetivas descumpridas, denúncias ignoradas e mulheres mortas mesmo após procurar ajuda.
Entre a intenção e a conveniência
O Brasil precisa, sim, de um pacto forte contra o feminicídio. Precisa de políticas permanentes, não apenas de anúncios solenes. Precisa de ação contínua, não só de gestos simbólicos quando o custo político da omissão fica alto demais.
Há mérito na iniciativa — negar isso seria injusto. Mas há também repúdio ao oportunismo, à sensação de que a dor das mulheres só vira prioridade quando rende discurso, imagem e capital político.
Porque para quem perdeu uma filha, uma irmã ou uma mãe, não existe ano eleitoral. Existe luto. E ele já dura tempo demais.