R$ 74 milhões no escuro: ONG recebe verba pública para projetos mirabolantes e vira alvo de investigação

R$ 74 milhões no escuro: ONG recebe verba pública para projetos mirabolantes e vira alvo de investigação

Associação Moriá embolsou recursos para ações que vão de videogames a combate à dengue, sem comprovar estrutura ou atuação; repasses foram suspensos e Flávio Dino exigiu explicações do governo

Uma ONG até então pouco conhecida, a Associação Moriá, passou a chamar atenção após receber R$ 74,5 milhões em emendas parlamentares para executar atividades que mais parecem um mix aleatório de políticas públicas: teve projeto gamer, campanha contra a dengue, shows populares e até cursinhos preparatórios para o Enem.

O problema é que, segundo apuração do Metrópoles, a entidade simplesmente não funciona no endereço que consta nos registros oficiais. Seus dirigentes seriam laranjas e, pior, muitos dos termos de fomento assinados com o governo foram baseados em informações falsas.

Entre dezembro de 2022 e dezembro de 2024, a Moriá foi agraciada com milhões de reais em verbas públicas — só no Distrito Federal, R$ 53,3 milhões saíram de emendas de deputados e um senador da região. O foco? Ensinar jovens a jogarem títulos como Free Fire e League of Legends, sob o pretexto de qualificação profissional para o “mercado do futuro”.

Na lista dos parlamentares que destinaram as quantias estão nomes como Fred Linhares (Republicanos), que sozinho indicou R$ 27,6 milhões, e o senador Izalci Lucas (PL), com R$ 15,5 milhões. Outros, como Bia Kicis e Julio Cesar, também colocaram suas digitais no repasse de verbas.

As suspeitas de irregularidades fizeram o STF entrar em cena: o ministro Flávio Dino cobrou explicações da Advocacia-Geral da União e do Congresso. Diante da pressão, o Ministério do Esporte suspendeu os pagamentos à ONG.

Além dos cursos de eSports, a Moriá também recebeu verba para colocar armadilhas contra o mosquito da dengue (R$ 7 milhões), financiar shows em feiras populares (R$ 250 mil) e cursinhos do Enem (R$ 150 mil). Tudo isso em um cenário em que, segundo técnicos ouvidos pela reportagem, não há comprovação da estrutura técnica ou pessoal qualificado para tocar projetos tão distintos.

A entidade até tentou se explicar, alegando contar com um time multidisciplinar formado por pedagogos, profissionais de TI, agentes de saúde, comunicadores e gestores. Mas, segundo investigação do próprio Metrópoles, essa equipe simplesmente não existe ou não atua como anunciado.

Os deputados, por sua vez, tentam se eximir. Fred Linhares e Gilvan Máximo disseram que apenas indicaram os recursos e que cabe ao governo federal aprovar e fiscalizar a execução. Reginaldo Veras, por exemplo, alegou que quando fez a indicação, a ONG ainda não era alvo de suspeitas.

Outros, como a deputada distrital Paula Belmonte, afirmaram que acompanharam a execução dos projetos — como o lançamento dos Jogos Estudantis Digitais, em Ceilândia. Mas mesmo esses relatos agora são alvo de desconfiança, já que a entidade está sob suspeita de ter forjado documentos para obter os contratos.

O escândalo acende um alerta sobre o uso de emendas parlamentares e a falta de controle sobre quem recebe os recursos. Enquanto isso, milhões de reais escoam por ralos invisíveis, sem garantia de que estão, de fato, servindo à população.

Fonte e Créditos: Metrópoles

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