
Racha no PL de Santa Catarina expõe disputa pelo legado de Bolsonaro e amplia tensão às vésperas das eleições de 2026
Florianópolis — A disputa interna no Partido Liberal (PL) em Santa Catarina ganhou novos contornos políticos após uma troca pública de acusações entre o senador Jorge Seif (PL-SC) e a deputada estadual Ana Campagnolo (PL-SC). O embate, marcado por críticas pessoais, referências ao bolsonarismo e divergências sobre os rumos da legenda, evidencia um dos momentos mais delicados da direita catarinense na preparação para as eleições de 2026.
O episódio começou após Ana Campagnolo conceder entrevista à Jovem Pan News Litoral, na qual classificou Jorge Seif como “o senador mais incompetente de Santa Catarina, talvez do Brasil”. Segundo a deputada, a atuação parlamentar de Seif é “lamentável” e representa uma escolha equivocada feita pelo ex-presidente Jair Bolsonaro quando decidiu apoiá-lo para disputar o Senado em 2022.
Apesar de reafirmar respeito e admiração por Bolsonaro, a parlamentar afirmou que até mesmo grandes lideranças políticas podem cometer erros.
“Bolsonaro é como um pai político para muitos de nós. Mas, às vezes, até um pai erra. Nesse caso, escolheu o filho errado”, declarou.
A fala repercutiu rapidamente entre lideranças do PL e motivou uma resposta pública de Jorge Seif por meio de vídeo divulgado nas redes sociais.
Seif reage e chama deputada de “Joice Catarinense”
Na gravação, o senador iniciou afirmando que não disputará nenhum cargo nas eleições deste ano, já que seu mandato no Senado vai até 2031, e acusou Ana Campagnolo de utilizar sua imagem para atingir indiretamente a família Bolsonaro.
Em tom duro, Seif apelidou a deputada de “Joice Catarinense”, numa referência à ex-deputada federal Joice Hasselmann, que rompeu politicamente com Jair Bolsonaro após ter sido uma das principais aliadas do ex-presidente em 2018.
Dentro do vocabulário político do bolsonarismo, a comparação possui forte simbolismo, sendo utilizada para caracterizar antigos aliados que posteriormente romperam com o grupo político.
Durante o vídeo, Seif afirmou que Ana estaria tentando se afastar gradualmente do movimento bolsonarista.
“Você se aproveitou do bolsonarismo, mas nunca embarcou verdadeiramente nele.”
O senador também disse que a deputada evita direcionar críticas diretamente aos integrantes da família Bolsonaro e, por isso, utilizaria sua figura como alvo.
“Se quer atacar os Bolsonaro, ataque. Não adianta apenas me atacar porque sou chamado de filho 06.”
Ao final da manifestação, Seif classificou Ana Campagnolo como “traíra” e concluiu dizendo que Jair Bolsonaro continua sendo “o melhor pescador de traíras do Brasil”.
Origem do apelido
O apelido “Joice Catarinense” faz referência à trajetória política de Joice Hasselmann.
Eleita deputada federal por São Paulo em 2018 com mais de um milhão de votos durante a ascensão do bolsonarismo, Joice tornou-se líder do governo Bolsonaro na Câmara dos Deputados.
Poucos meses depois rompeu com o governo, passou a fazer oposição ao ex-presidente, deixou o PSL e migrou para o PSDB. Na eleição seguinte sofreu uma queda expressiva de votação.
Por isso, dentro do universo político bolsonarista, o nome de Joice tornou-se uma metáfora para antigos aliados considerados desleais.
Divergências antigas
O conflito entre Ana Campagnolo e Jorge Seif não começou recentemente.
Desde 2025 ambos acumulam divergências relacionadas principalmente à decisão da direção nacional do PL de lançar Carlos Bolsonaro como candidato ao Senado por Santa Catarina.
Na época, Ana foi uma das primeiras lideranças estaduais do partido a criticar publicamente a escolha.
Carlos Bolsonaro respondeu chamando a deputada de mentirosa.
Posteriormente, Eduardo Bolsonaro também criticou Ana, acusando-a de falta de lealdade ao projeto político da família.
Dias depois, Jorge Seif discursou no Senado afirmando que Ana “até ontem era apenas professora”, declaração que provocou forte reação entre parlamentares e entidades ligadas à educação.
O peso das redes sociais
Outro ponto explorado por Seif foi a circulação de antigas postagens atribuídas à deputada nas redes sociais, publicadas entre 2011 e 2012, antes de sua entrada na política.
As mensagens abordavam temas como álcool, drogas, religião e relacionamentos, conteúdos que posteriormente foram interpretados por críticos como incompatíveis com sua atuação conservadora.
Na época, Ana Campagnolo afirmou que os textos eram ironias produzidas durante o período universitário e negou qualquer envolvimento com uso de drogas.
Segundo a deputada, o material foi retirado de contexto por adversários políticos.
Durante sua resposta, Seif voltou a mencionar esses episódios e afirmou que “os prints são eternos”.
Disputa pelo legado bolsonarista
Embora ambos integrem o mesmo partido e defendam pautas semelhantes, o confronto revela uma disputa interna pela representação do bolsonarismo em Santa Catarina.
Enquanto Jorge Seif reforça alinhamento integral à família Bolsonaro, Ana Campagnolo procura demonstrar independência em determinadas decisões políticas, embora continue declarando respeito ao ex-presidente.
A tensão aumenta em um momento decisivo para o PL, que organiza suas candidaturas estaduais e busca preservar unidade durante a campanha eleitoral.
Cenário eleitoral
Jorge Seif não disputará cargos em 2026, pois seu mandato no Senado termina apenas em 2031.
Ana Campagnolo, por sua vez, foi homologada como candidata à reeleição para a Assembleia Legislativa de Santa Catarina.
Até o momento, a deputada não havia respondido publicamente às declarações feitas pelo senador após a divulgação do vídeo.
Mesmo sem envolver diretamente uma disputa eleitoral entre ambos neste ano, o episódio evidencia as divisões internas dentro do principal partido da direita brasileira e demonstra que as divergências sobre liderança, estratégia e fidelidade ao legado político de Jair Bolsonaro continuam influenciando o cenário político catarinense às vésperas das eleições de 2026.