
Randolfe desafia oposição e diz estar “louco” pela CPI do INSS
Após tentativa do Planalto de adiar a comissão, líder do governo diz que vai com “time titular” e culpa Bolsonaro por esquema de fraudes bilionárias
Brasília – Um dia depois da movimentação do governo para tentar empurrar com a barriga a criação da CPI do INSS, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, virou o jogo com declarações fortes. Em tom provocativo, disse nesta terça-feira (17) estar “louco” pela instalação da comissão, e garantiu que o governo irá com força total para investigar o escândalo de fraudes bilionárias envolvendo convênios do INSS.
— A gente queria muito que essa CPMI acontecesse. E agora vamos com tudo. Essa roubalheira só aconteceu porque o governo anterior autorizou empresas de fachada a operarem dentro do INSS. E só foi desvendada porque a nossa gestão deu autonomia para a Polícia Federal e para a CGU irem fundo nas investigações — afirmou Randolfe.
O pedido de criação da CPI foi oficialmente lido pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), no fim da sessão do Congresso Nacional. A expectativa é que os trabalhos comecem mesmo só no segundo semestre.
Randolfe ainda fez questão de mandar um recado: o governo não vai entrar nessa disputa com time reserva.
— Vamos com o time principal. Vai doer? Vai. Mas a verdade precisa aparecer. Onde tiver que chegar, vamos chegar. Custe o que custar — cravou o senador.
Apesar do governo ter tentado atrasar a instalação da CPI, Randolfe considerou a sessão do Congresso uma vitória. Segundo ele, foram mantidos 236 itens de vetos presidenciais — o maior número de vetos sustentados numa única sessão até hoje.
Um deles, Randolfe fez questão de destacar: o veto relacionado às mães vítimas do vírus da zika, que será regulamentado via petição do governo ao Supremo Tribunal Federal.
— Foi uma sessão importante. Mesmo com a tensão da CPI, saímos fortalecidos — avaliou.
A CPI foi proposta pela deputada Coronel Fernanda (PL-MT), com apoio da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ambas da oposição. A coleta de assinaturas teve até adesão de parlamentares da base aliada, o que levou o governo a mudar de estratégia: em vez de tentar barrar, agora quer assumir postos-chave na comissão.
O nome da deputada Tabata Amaral (PSB-SP) tem sido cotado para a relatoria, por ser do mesmo partido do vice-presidente Geraldo Alckmin. Há também articulações para que a presidência da CPI fique com um senador governista, já que na última comissão foi o contrário.
A origem de toda essa crise está numa investigação da Polícia Federal: entre 2019 e 2024, ao menos 4,2 milhões de aposentados e pensionistas foram vítimas de cobranças indevidas feitas por entidades conveniadas ao INSS, sem autorização. Mais de R$ 6 bilhões teriam sido desviados. A operação, batizada de Sem Desconto, levou à demissão do presidente do INSS da época e à prisão de figuras ligadas ao esquema — incluindo um lobista conhecido como “Careca do INSS”.
O governo Lula afirma que a maioria dos contratos suspeitos foi firmada entre 2019 e 2022, ainda sob Bolsonaro. A CGU já havia alertado sobre os problemas antes mesmo da posse do atual presidente, mas aliados reconhecem que a permanência dos convênios no início do novo mandato criou um desgaste difícil de contornar.
Para tentar virar essa página, o Ministério da Previdência lançou um sistema de consulta e contestação de descontos indevidos. Até agora, R$ 2,5 bilhões foram bloqueados de 12 entidades suspeitas e poderão ser usados para ressarcir os aposentados prejudicados.
Agora, com a CPI batendo à porta, o governo tenta mostrar que está do lado da verdade — e não da encoberta. A batalha política e narrativa está só começando.