Seis acusados ligados ao PCC confessam participação em esquema de lavagem de US$ 30 milhões nos Estados Unidos

Seis acusados ligados ao PCC confessam participação em esquema de lavagem de US$ 30 milhões nos Estados Unidos

Rede internacional teria movimentado dinheiro do tráfico de drogas entre EUA e Brasil; investigação aponta atuação de operadores financeiros em diferentes estados americanos

Uma investigação internacional contra o crime organizado ganhou um novo capítulo nos Estados Unidos após seis homens apontados como integrantes de uma rede financeira ligada ao Primeiro Comando da Capital, o PCC, admitirem participação em um esquema milionário de lavagem de dinheiro.

Segundo as autoridades americanas, o grupo teria movimentado mais de US$ 30 milhões em recursos provenientes do tráfico de drogas, utilizando uma estrutura organizada para coletar dinheiro em espécie, inserir os valores no sistema financeiro e transferir parte dos recursos para beneficiar a facção criminosa no Brasil.

Os acusados se declararam culpados pelo crime de conspiração para lavagem de dinheiro em processo que tramita no Tribunal Distrital do Sul da Flórida, nos Estados Unidos. Com as confissões, o caso não deverá seguir para julgamento por júri, e a próxima etapa será a definição das penas por um juiz federal americano.

Cada réu pode receber uma condenação de até 20 anos de prisão, mas a pena final dependerá da participação individual no esquema, dos valores movimentados, do histórico criminal e de outros fatores considerados pela Justiça dos Estados Unidos.


Quem são os acusados

Entre os seis réus estão cinco brasileiros e um cidadão americano. Todos viviam na região de Orlando, na Flórida, área que, segundo investigadores, teria servido como um dos centros de operação da rede financeira.

Os acusados são:

  • Ygor Fokin Saviolli, 35 anos;
  • Gabriel Cezar Menezes, 29 anos;
  • João Andrade de Mello, 29 anos;
  • Tadeu Sebastiane Rabelo Alves Barbosa, 30 anos;
  • Leandro de Ávila Gonçalves, 42 anos;
  • Omar Aliperti de Mello Correa, 34 anos, cidadão americano.

A investigação foi conduzida pelo FBI, com apoio da DEA, agência americana de combate às drogas, e da divisão de Investigações de Segurança Interna do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos, incluindo equipes de Miami e o escritório de ligação em Brasília.


Como funcionava o esquema

De acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a organização criminosa atuava como uma espécie de engrenagem financeira internacional.

O dinheiro teria origem na venda de drogas em diferentes regiões americanas. Grandes quantias em espécie eram recolhidas por integrantes da rede, depois depositadas em instituições financeiras para esconder a origem ilícita dos recursos.

Após passar pelo sistema financeiro, parte do dinheiro seria enviada para fornecedores de drogas e integrantes da estrutura criminosa fora dos Estados Unidos.

As autoridades afirmam que a operação era coordenada por meio de conversas em aplicativos de mensagens, principalmente o WhatsApp.

Os transportadores eram acionados para buscar valores em diversas cidades americanas, incluindo:

  • Atlanta;
  • Charlotte;
  • Chicago;
  • Cleveland;
  • Minneapolis;
  • Rochester;
  • Tampa.

A dimensão da operação chamou atenção dos investigadores pela logística utilizada: uma rede espalhada por diferentes estados, responsável por recolher grandes volumes de dinheiro vivo e movimentar os recursos sem levantar suspeitas.


Papel de cada acusado

Segundo os documentos apresentados pelas autoridades americanas, cada integrante teria uma função específica dentro da estrutura.

Ygor Fokin Saviolli é apontado como um dos principais operadores. De acordo com a investigação, ele teria financiado previamente algumas operações, supervisionado recebimentos e participado da coordenação da lavagem dos valores.

Gabriel Cezar Menezes teria atuado como facilitador, orientando transportadores e participando diretamente de algumas coletas de dinheiro.

Omar Correa, João Andrade de Mello, Tadeu Barbosa e Leandro Gonçalves seriam responsáveis principalmente pelo transporte e recolhimento de grandes quantias em dinheiro em diferentes regiões dos Estados Unidos.

Os documentos oficiais afirmam que os seis faziam parte da rede financeira associada ao PCC, mas não esclarecem se todos tinham vínculo formal como integrantes da facção ou se alguns atuavam como operadores, facilitadores e prestadores de serviço para a organização criminosa.


Ligação com o PCC e movimentação internacional

A conexão do esquema com o PCC foi confirmada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, que identificou dois grandes núcleos financeiros da organização: um localizado na Flórida e outro em São Paulo.

Segundo as autoridades americanas, o núcleo brasileiro teria ligação com Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, apontados como integrantes importantes da estrutura financeira da facção.

Shimada foi descrito pelos investigadores como um elo entre operadores do PCC nos Estados Unidos e fornecedores internacionais de drogas.

Parte dos valores arrecadados nos Estados Unidos teria sido enviada ao Brasil por meio de criptomoedas, uma ferramenta que, segundo autoridades, pode ser utilizada por organizações criminosas para dificultar o rastreamento financeiro.

O governo americano aplicou sanções contra pessoas e empresas relacionadas à estrutura financeira investigada.


Prisão, julgamento e possível deportação

Com as confissões de culpa, os acusados evitaram um julgamento tradicional com participação de júri.

Agora, um juiz federal americano deverá analisar cada caso individualmente e definir as penas.

Os brasileiros envolvidos ainda poderão enfrentar consequências migratórias após o cumprimento das condenações, incluindo processos de remoção dos Estados Unidos.

Omar Aliperti de Mello Correa, por ser cidadão americano, não está sujeito à deportação.


Uma investigação que revela a expansão internacional do crime organizado

O caso expõe uma realidade que preocupa autoridades brasileiras e americanas: a expansão das organizações criminosas para além das fronteiras nacionais.

O PCC, que nasceu dentro do sistema prisional paulista e se transformou em uma das maiores facções criminosas da América Latina, passou a construir estruturas internacionais envolvendo tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e redes financeiras clandestinas.

A investigação americana mostra como o crime organizado deixou de depender apenas de ações locais e passou a operar com métodos semelhantes aos de grandes organizações financeiras: divisão de funções, uso de tecnologia, movimentações internacionais e tentativa de ocultação de patrimônio.

Agora, a Justiça dos Estados Unidos deverá definir o futuro dos seis acusados, enquanto as autoridades continuam investigando outros possíveis integrantes da rede que teria movimentado milhões de dólares entre os Estados Unidos e o Brasil.

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