
Silêncio seletivo: Quando o juiz só fala quando convém
Ministro do STF só se manifesta após mortes em ações da PM de São Paulo, ignorando milhares de vítimas da violência diária no país. Justiça seletiva ou conveniência política?
No Brasil, onde a violência ceifa milhares de vidas todos os anos, o silêncio do Judiciário costuma ser ensurdecedor. Mas bastou duas mortes em ações da Polícia Militar de São Paulo — subordinada ao governo de Tarcísio de Freitas, opositor declarado do governo federal — para que o ministro Gilmar Mendes, do STF, surgisse nas redes sociais cobrando “legalidade”, condenando “execuções sumárias” e exaltando o uso de câmeras corporais.
O timing da fala é sintomático. Por que agora? Onde estava a indignação quando jovens pretos e pobres são assassinados todos os dias nas periferias do Brasil, sem direito sequer ao benefício da dúvida? O silêncio é regra, mas a fala aparece quando há embate político envolvido. Soa menos como defesa da legalidade e mais como posicionamento estratégico.
Gilmar lamentou publicamente as mortes de Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, executado mesmo após se render na favela de Paraisópolis, e Guilherme Dias, um trabalhador de 26 anos, morto com um tiro na cabeça por um PM que alegou “confusão”. Tragédias, sim — mas tragédias que se repetem há décadas e que quase nunca merecem uma linha dos togados do Supremo.
A pergunta que fica: por que o Judiciário cala quando a vítima não gera manchete ou quando o agressor não é politicamente “inconveniente”? Por que só agora se ergue a voz contra o Estado que mata?
A indignação não pode ter cor partidária. Nem a legalidade. Se o ministro do STF deseja defender os direitos humanos, que o faça sempre — e não apenas quando o acusado é do lado contrário da política que ele tolera.
Essa seletividade fere a democracia tanto quanto a bala que mata um inocente. Porque justiça que escolhe quando se manifestar, não é justiça. É omissão travestida de moral.