STF de Sempre: Lula Troca o Nome, Mas Mantém o Clube dos Mesmos

STF de Sempre: Lula Troca o Nome, Mas Mantém o Clube dos Mesmos

Indicação de Jorge Messias expõe, mais uma vez, como o Supremo continua fechado em sua própria bolha — um círculo de poder que atravessa décadas sem mudar um fio.

A escolha de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal não surpreende ninguém que acompanha a dança das cadeiras em Brasília. Lula, mais uma vez, recorreu ao seu círculo de confiança — algo quase automático — e reforçou um padrão que já dura mais de 30 anos: o STF segue sendo um condomínio restrito de uma elite jurídica que pouco dialoga com o Brasil real.

Desde a redemocratização, o perfil dos ministros é praticamente um déjà-vu eterno. Homens, vindos de famílias bem posicionadas, educados em faculdades que cabem nos dedos de uma mão e concentrados em meia dúzia de Estados. É como se o País inteiro tivesse 27 unidades federativas, mas apenas quatro realmente contassem quando o assunto é ocupar as cadeiras mais cobiçadas do Judiciário.

Mesmo com mudanças de governo e discursos sobre diversidade, o retrato não sai do mesmo quadro. Lula, desde 2003, já indicou dez ministros — agora, com Messias, vai para o décimo primeiro. Mas a pluralidade, essa sim, segue tímida: apenas uma mulher e um homem negro chegaram lá por suas mãos. Fora isso, é o mesmo roteiro de sempre.

A indicação de Messias para a vaga deixada por Luís Roberto Barroso confirma essa lógica. O presidente escuta aliados próximos, aposta em nomes de confiança e preserva o padrão homogêneo da Corte — mesmo enquanto entidades civis e juristas pedem uma mudança mais profunda.

Pesquisas coordenadas por Fernando Fontainha, do IESP-UERJ, reforçam o que é visível a olho nu: desde o século XIX, a maior parte dos ministros vem de famílias que já orbitavam o topo da pirâmide social — militares de alto escalão, políticos influentes, grandes proprietários e magistrados de tradição familiar. Quase 80% possuem esse pedigree. É como se a porta do STF tivesse um aviso invisível: “Apenas para convidados”.

Histórias de origem popular são raríssimas — exceções como a de Sydney Sanches, filho de ferroviário, ou Joaquim Barbosa, filho de pedreiro, são lembradas justamente por fugirem da regra.

E o filtro do privilégio continua no ensino. Mais de 80% dos ministros formaram-se em universidades do Sul e Sudeste. A região Norte, por exemplo, segue zerada no placar: jamais formou um ministro do Supremo. Nada mal para um tribunal que deveria representar o País inteiro.

O professor Luiz Gomes Esteves, do Insper, aponta o óbvio que poucos gostam de admitir: o STF não representa o Brasil nem regionalmente, nem racialmente, nem em gênero. De 39 ministros indicados desde 1988, três foram mulheres e apenas um foi negro. Os números falam alto.

Por isso a reação à indicação de Lula não veio à toa. O presidente estava sob forte pressão para apresentar um nome que rompesse pelo menos um pedaço desse padrão engessado. Mas, no fim, valeu mais a proximidade pessoal do que qualquer promessa de pluralidade.

Como explica a professora Ana Laura Barbosa, da ESPM, a grande diferença não está no currículo — todos seguem trajetórias parecidas — mas nas conexões políticas que elevam um nome à vaga. No STF, quem você conhece ainda pesa mais do que quem você é.

O nome muda. A cadeira muda de dono. Mas o roteiro do Supremo permanece o mesmo.

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