
Tornozeleira no Gabinete
💸 Diretor do Dnit cai após escândalo e deixa cargo sob repúdio público
No Brasil oficial, parece que nem sempre uma tornozeleira eletrônica é obstáculo para ocupar cargo de chefia. Pelo menos foi assim até esta semana no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Após a repercussão de uma reportagem revelando que despachava normalmente enquanto era monitorado pela Justiça, o diretor de Finanças do órgão, Marcos de Brito Campos Júnior, finalmente pediu exoneração.
O pedido foi feito ao Ministério dos Transportes e publicado no Diário Oficial, encerrando uma situação que já beirava o constrangimento institucional. Marcos é investigado pela Polícia Federal por envolvimento em um esquema de desvio de dinheiro de aposentados do INSS e é um dos alvos da Operação Sem Desconto, deflagrada em dezembro de 2025.
Há pouco mais de três semanas, ele vinha exercendo suas funções usando tornozeleira eletrônica, como se fosse apenas mais um acessório de escritório. Segundo as investigações, Marcos teria atuado como peça-chave na engrenagem criminosa que permitia descontos fraudulentos diretamente na folha de pagamento de aposentados, auxiliando o já conhecido Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”.
A Polícia Federal aponta que passagens aéreas usadas por Marcos foram pagas por empresa de fachada ligada ao esquema, além de indícios de que ele teria recebido R$ 20 mil como pagamento por seus serviços. Para os investigadores, ele não era figurante, mas agente central do esquema, essencial para o funcionamento da fraude.
Apesar da gravidade, a prisão preventiva foi negada pelo ministro André Mendonça, do STF, que optou por medidas alternativas, como a proibição de contato com outros investigados e o uso da tornozeleira. Assim, Marcos seguiu no cargo — até que a exposição pública tornou a permanência insustentável.
Com a exoneração, ele abre mão de um salário de cerca de R$ 23 mil mensais, alegando que agora pretende se dedicar integralmente à própria defesa. Tarde, dizem críticos, já que o dano à imagem do órgão estava feito.
O caso reacende o repúdio popular a uma velha prática brasileira: investigados por corrupção ocupando cargos estratégicos, enquanto aposentados — justamente as vítimas do esquema — seguem contando moedas para fechar o mês.
Mais uma vez, o escândalo não é só o crime investigado, mas o fato de que alguém com tornozeleira conseguiu permanecer no alto escalão do Estado. Um retrato incômodo de um país onde, muitas vezes, a punição chega depois do constrangimento público — nunca antes.