
Tropa nas ruas, medo intacto: governo do México reage tarde após caos deixado por El Mencho
Depois de anos de avanço do narcotráfico, autoridades anunciam mobilização de 10 mil militares, enquanto a população segue refém da violência
A morte de Nemesio Oseguera, o “El Mencho”, escancarou mais uma vez a fragilidade do Estado diante do crime organizado no México. Só depois do líder do Cartel Jalisco Nova Geração tombar em uma operação militar, o governo decidiu reagir com força total: cerca de 10 mil militares foram mobilizados no oeste do país para conter a onda de ataques e represálias.
O anúncio foi feito em coletiva no Palácio Nacional, com a presença da presidente Claudia Sheinbaum e do ministro da Defesa Ricardo Trevilla Trejo. O discurso oficial fala em “efeito dissuasivo” e proteção da população. Mas, para muitos mexicanos, a sensação é de que a resposta chegou tarde demais.
Enquanto o governo garante que não houve participação direta das forças dos Estados Unidos — apenas troca de informações de inteligência —, os números mostram a dimensão do desastre: mais de 250 bloqueios de estradas em ao menos 20 estados, cidades paralisadas, comércios incendiados e comunidades inteiras vivendo sob pânico.
O ministro da Segurança, Omar García Harfuch, confirmou que pelo menos 25 integrantes da Guarda Nacional morreram nos ataques do cartel após a operação. Também houve mortes de agentes penitenciários, servidores públicos e civis. A violência não foi um raio em céu azul — foi a consequência direta de anos de tolerância, omissão e incapacidade do Estado em desmontar o poder dessas organizações.
A presença militar em Jalisco, segundo Trevilla, já contava com cerca de 7 mil soldados e agora será reforçada. O problema é que o narcotráfico não surgiu ontem. O CJNG construiu seu domínio ao longo do tempo, desafiando governos, atacando autoridades e impondo medo, enquanto estratégias definitivas nunca saíam do papel.
O discurso de que “o mais importante é proteger as pessoas” soa correto, mas tardio. A população quer mais do que tanques nas ruas depois do estrago feito. Quer respostas sobre por que foi preciso chegar a esse ponto para que o governo agisse com firmeza.
A morte de El Mencho abriu uma disputa interna no cartel e o risco de um novo ciclo de violência é real. A pergunta que fica é incômoda, mas inevitável: o governo mexicano vai, finalmente, enfrentar o problema pela raiz ou seguirá apenas apagando incêndios — literalmente — enquanto o país sangra?