
Trump e o teste de lealdade: como o Brasil virou alvo da instabilidade nas relações internacionais
Revista britânica The Economist vê as tarifas e sanções americanas como um sinal claro de que Trump ajusta princípios conforme seus interesses, abalando a confiança dos aliados
O confronto tarifário e político que Donald Trump iniciou contra o Brasil virou para a revista britânica The Economist um exemplo emblemático de como o presidente dos Estados Unidos tem tornado seu país menos confiável para parceiros históricos.
Em um artigo da coluna “Lexington”, a publicação destaca que Trump tem flexibilizado conceitos sólidos, como soberania e direitos humanos, quando isso serve aos seus próprios interesses, deixando até aliados próximos em estado de alerta e insegurança.
“No embate com o Brasil, Trump está testando os limites da paciência de um aliado que valoriza sua soberania, e também ampliando a ideia do que considera ser o interesse americano”, afirma o texto.
Um marco nessa relação foi em 17 de junho, quando Trump usou as redes sociais para apoiar publicamente o ex-presidente Jair Bolsonaro — envolvido em acusações por tentativa de golpe após as eleições de 2022. Na mensagem, Trump criticou o governo brasileiro, chamando o tratamento a Bolsonaro de “terrível” e acusando Brasília de manter um “regime ridículo de censura”.
Pouco depois, o clima azedou ainda mais com o anúncio de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros exportados aos EUA, atingindo setores-chave como carnes e café, embora itens como suco de laranja tenham sido poupados.
A Economist questiona se o consumidor americano está disposto a pagar mais no supermercado “só para ajudar um aliado de Trump a escapar de processos judiciais” e aponta as contradições entre o discurso do presidente e suas ações.
O artigo destaca ainda que o respeito pelos direitos humanos parece variar conforme o interesse: incômodo no Brasil, mas indiferente em El Salvador; empenho contra o antissemitismo em Harvard, mas silêncio diante das declarações polêmicas de figuras como o rapper Kanye West.
Na ONU, em 2018, Trump defendeu que cada país tem o direito de seguir suas próprias tradições, sem interferências externas. No entanto, sua “paixão pela soberania” não o impediu de manifestar interesse por territórios estratégicos como o Canal do Panamá, o Canadá e até a Groenlândia. A conclusão da revista é clara: “Trump não desistiu de liderar o mundo; ele apenas decidiu exercer essa liderança onde, quando e como quiser.”