
Tudo certo, nada a ver: quando R$ 129 milhões viram “assunto privado”
Paulo Gonet arquiva pedido sobre contrato milionário ligado à família de Moraes e trata o caso como rotina comum da advocacia
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, decidiu colocar um ponto final — bem rápido, por sinal — no pedido de investigação que questionava um contrato milionário entre o Banco Master e o escritório de advocacia comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Para a PGR, está tudo dentro da normalidade. Arquiva-se o pedido e segue o jogo.
Segundo Gonet, não existe qualquer indício de irregularidade que justifique investigação ou, muito menos, a atuação da Suprema Corte. Em outras palavras: R$ 129 milhões pagos em 36 meses, cerca de R$ 3,6 milhões por mês, não levantam sequer uma sobrancelha institucional.
A justificativa é simples e conveniente. Trata-se, segundo o procurador-geral, de um contrato entre partes privadas, firmado no “exercício regular da advocacia”. Logo, não caberia nem à PGR nem ao STF “ingerir” em negócios dessa natureza. O problema, ao que parece, não é o valor, nem o contexto — é só um detalhe irrelevante.
Gonet também fez questão de desqualificar reportagens jornalísticas usadas como base no pedido, alegando que elas não teriam “densidade suficiente” para mobilizar a máquina do Ministério Público. Tradução prática: notícia pode até existir, mas não incomoda.
Com isso, o caso foi oficialmente enterrado antes mesmo de nascer. Nenhuma apuração, nenhuma diligência, nenhuma explicação mais profunda à sociedade. O entendimento é claro: quando envolve certas figuras e cifras altas, o rigor jurídico tira férias.
Para o cidadão comum, que enfrenta fiscalizações implacáveis por muito menos, sobra a sensação de dois pesos e duas medidas. Afinal, se esse tipo de contrato não merece sequer um olhar mais atento, fica a dúvida incômoda: o que, afinal, mereceria?
O recado institucional está dado — e soa alto: no topo do poder, até cifras milionárias podem ser tratadas como meros assuntos privados.