
Quando falta cautela, sobra propaganda: R$ 160 milhões no palco da Globo
Banco ligado ao Master aposta pesado no Domingão enquanto levanta sobrancelhas no mercado financeiro
Enquanto muita gente aperta o cinto, o Will Bank — braço digital do Banco Master — resolveu abrir a carteira. E não foi pouco. O banco bancou um dos patrocínios mais caros da televisão brasileira, garantindo presença de destaque no Domingão da Globo, com uma fatura que pode chegar a R$ 160 milhões.
Não se trata de um simples logo no canto da tela. O pacote inclui menções diretas do apresentador, quadros “batizados”, cenografia personalizada e até prêmios ao público. No total, algo entre 8 e 12 minutos de exposição nobre por programa, num dos horários mais disputados da TV aberta. Marketing de luxo, em horário premium.
Estimativas do próprio mercado publicitário indicam que, ao longo de 6 a 8 domingos, o investimento ficou entre R$ 120 milhões e R$ 160 milhões. Em troca, o Will Bank teria conquistado cerca de 500 mil novos usuários ativos no aplicativo. Número expressivo, sem dúvida — mas que vem acompanhado de perguntas incômodas.
O detalhe que não passa despercebido: o Will Bank pertence ao Banco Master Múltiplo, instituição que escapou da liquidação extrajudicial, mas acabou colocada sob Regime de Administração Especial Temporária (RAET) pelo Banco Central. Na prática, isso significa intervenção direta na gestão para tentar evitar algo pior.
Ainda assim, o marketing seguiu em ritmo acelerado, contrariando o padrão do setor. Em vez de campanhas pontuais, a estratégia foi de exposição contínua e caríssima, algo pouco comum para instituições que enfrentam pressão regulatória e desafios de liquidez.
No mercado financeiro, esse tipo de movimento costuma acender alertas. Quando o caixa aperta e a propaganda explode, a leitura é simples: ganhar tempo, atrair massa, diluir riscos. Uma base maior de clientes tende a reagir menos de forma coordenada em cenários de crise — pelo menos no curto prazo.
Com cerca de R$ 7 bilhões em passivos e movimentando algo próximo de R$ 8 bilhões em transações, o Will Bank virou peça central numa equação delicada. A aposta em mídia de massa, contratos longos e altos custos levanta uma dúvida inevitável: trata-se de crescimento sustentável ou de uma corrida contra o relógio?
No fim das contas, fica a ironia difícil de ignorar: quando a situação pede cautela, a escolha foi o holofote. E, no Brasil, nada ilumina mais do que o palco da Globo — mesmo que o brilho venha acompanhado de sinais amarelos piscando nos bastidores.