
USP critica falta de autorização para contar público em ato de Lula na Paulista; imagens aéreas levantam questionamentos
Monitor ligado à USP e organização More in Common afirmam que não conseguiram autorização para usar drones na manifestação de 11 de outubro; enquanto isso, imagens aéreas do evento foram divulgadas, e a estimativa de público permaneceu sem contagem independente dessas entidades.
A manifestação em apoio à candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), realizada em 11 de outubro de 2026 na Avenida Paulista, em São Paulo, tornou-se motivo de questionamento depois que o Monitor do Debate Político no Meio Digital, ligado ao Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e à Universidade de São Paulo (USP), informou que não conseguiu autorização para realizar sua estimativa de público por meio de imagens captadas por drone. A organização More in Common Brasil também participou da iniciativa de pesquisa.
O caso ganhou repercussão porque, segundo as entidades, imagens aéreas da manifestação foram divulgadas por veículos de comunicação e por perfis associados à campanha petista, apesar de a equipe independente não ter recebido autorização para realizar o levantamento com a metodologia que utiliza em diferentes atos políticos. A situação levou os pesquisadores a questionar os critérios aplicados para permitir ou restringir esse tipo de operação.
Em nota, as organizações argumentaram que, se há autorização para sobrevoos destinados à produção de imagens de divulgação, a negativa a uma equipe independente, com histórico público de pesquisas, precisa ser esclarecida. Para os pesquisadores, a questão não se limita à possibilidade técnica de operar drones, mas envolve a transparência e a aplicação uniforme das regras em eventos políticos.
A crítica, contudo, deve ser distinguida de uma conclusão definitiva sobre a motivação da restrição. O uso de drones em eventos com a presença do presidente envolve protocolos de segurança, e as entidades reconhecem que a operação depende de autorização. Até a publicação das reportagens, a campanha de Lula e o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) não haviam respondido aos questionamentos enviados pela imprensa sobre os critérios específicos adotados no caso.
Uma nova tentativa sem autorização
De acordo com o Monitor e a More in Common, a manifestação de 11 de outubro foi mais uma ocasião em que não conseguiram realizar a contagem de um evento com a presença de Lula durante a campanha eleitoral de 2026. As organizações também mencionaram tentativas anteriores, incluindo o lançamento da campanha em São Bernardo do Campo, em 16 de agosto, e manifestações realizadas em São Paulo.
Os relatos publicados apresentam diferenças na contagem das ocorrências conforme o período considerado e os eventos incluídos. O ponto comum é que as entidades afirmam ter enfrentado repetidas dificuldades para obter autorização para o sobrevoo necessário à pesquisa em atos com a presença do presidente.
No caso de 11 de outubro, os pesquisadores afirmaram que não fariam a operação sem a liberação necessária. A decisão foi apresentada como uma medida de respeito aos protocolos de segurança e de proteção dos equipamentos e dos profissionais contratados para o serviço.
As entidades explicaram que trabalham com orçamento limitado e não podem assumir o risco de ter um drone neutralizado ou recolhido durante uma operação não autorizada. Por isso, a contagem depende da autorização prévia e não pode ser feita apenas com base na decisão dos pesquisadores de comparecer ao local.
Como funciona a metodologia de contagem
O Monitor do Debate Político e a More in Common utilizam imagens aéreas da área ocupada pela manifestação. As fotografias são captadas em ângulo vertical e em intervalos regulares, e um programa de computador auxilia na identificação e contagem das pessoas presentes.
A metodologia procura estimar o público em determinado momento, especialmente no horário de maior concentração. Por isso, a ausência das imagens necessárias impede que as organizações produzam sua estimativa independente nos moldes habituais.
É importante observar que fotografias aéreas comuns, vídeos curtos e imagens produzidas de outros ângulos não permitem necessariamente chegar ao mesmo resultado. A densidade da multidão, a área efetivamente ocupada e o momento da captura influenciam a estimativa. <Cite refs={[“turn105831news2″,”turn105831news0”]}/>
Imagens aéreas foram divulgadas, mas não houve contagem independente
Embora o levantamento do Monitor não tenha sido realizado, imagens da manifestação foram divulgadas. O Poder360 informou que um drone da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo registrou trechos da Avenida Paulista entre 13h07 e 13h14, pouco depois do discurso de Lula. Também circularam imagens produzidas pela campanha e por outros grupos.
Segundo o veículo, a manifestação ocupou aproximadamente sete quarteirões da avenida. O Poder360 calculou que o trecho considerado tinha cerca de 65,2 mil metros quadrados, incluindo calçadas, asfalto e canteiro central. Em um exercício hipotético de densidade de quatro pessoas por metro quadrado, a capacidade seria de aproximadamente 261 mil pessoas — número que não representa uma contagem real de participantes.
A publicação também registrou que apoiadores de Lula divulgaram nas redes sociais a alegação de que o ato teria reunido um milhão de pessoas, sem apresentar a metodologia utilizada para chegar a esse total. Sem uma contagem independente baseada em imagens adequadas, não é possível tratar essa cifra como número confirmado. <Cite refs={[“turn105831search7″,”turn105831news0”]}/>
Segurança presidencial e transparência
A segurança do presidente é coordenada pelo Gabinete de Segurança Institucional. Eventos com a presença do chefe do Executivo podem envolver restrições ao espaço aéreo e regras específicas para drones, em razão de riscos à integridade das autoridades e do público.
O desafio é conciliar essas exigências com a possibilidade de pesquisas independentes. As entidades afirmam reconhecer a necessidade dos protocolos, mas pedem critérios claros para que pesquisadores possam realizar levantamentos em atos de diferentes candidaturas.
O grupo informou que mantém a disposição de realizar contagens em manifestações de Flávio Bolsonaro (PL), utilizando os mesmos procedimentos. As organizações citaram levantamentos anteriores em atos políticos de diferentes campos, incluindo uma manifestação convocada pelo deputado Nikolas Ferreira, na Avenida Paulista, e o lançamento da campanha de Flávio em Copacabana. <Cite refs={[“turn105831news0″,”turn105831news4”]}/>
O que precisa ser esclarecido
O episódio levanta questões objetivas: quais critérios foram utilizados para autorizar algumas captações aéreas e impedir outras? Quem teve a responsabilidade final pela decisão? E como garantir que as regras de segurança sejam aplicadas de forma transparente, sem comprometer a independência de pesquisas sobre manifestações políticas?
A falta de autorização impediu o Monitor da USP e a More in Common de apresentar sua própria estimativa para o ato de 11 de outubro. A existência de outras imagens aéreas, por sua vez, não significa que elas sejam suficientes para uma contagem precisa.
Até que os responsáveis esclareçam os critérios adotados, a questão permanece aberta. A ausência de uma estimativa independente não prova, por si só, que houve intenção de esconder o tamanho do público. Ainda assim, a repetição de dificuldades relatadas pelos pesquisadores justifica explicações públicas e regras transparentes para futuras manifestações.
Em períodos eleitorais, números sobre multidões são frequentemente usados para demonstrar força política e mobilização. Por isso, a divulgação de estimativas precisa vir acompanhada de metodologia verificável, enquanto restrições à coleta independente de dados devem ser explicadas com clareza. A transparência interessa tanto aos apoiadores quanto aos críticos de qualquer candidatura.
Referências: Metrópoles — Monitor da USP critica proibição de contagem de ato pró-Lula na Paulista · TMC — Ato de Lula na Paulista não teve contagem de público; veja motivo · Poder360 — Veja ato de Lula na Avenida Paulista em imagens captadas do alto