
Velhos rostos, o mesmo poder
Delcy recicla aliados de Maduro e sinaliza que não pretende largar o comando da Venezuela
A chamada “transição” na Venezuela começa a soar cada vez mais como continuidade disfarçada. A presidente interina Delcy Rodríguez decidiu puxar para dentro do seu governo um antigo guarda-costas de Nicolás Maduro, gesto que levanta suspeitas e reforça a percepção de que o chavismo apenas trocou de cadeira — não de projeto.
Nesta segunda-feira, Delcy nomeou o capitão Juan Escalona para o estratégico cargo de ministro do Gabinete da Presidência, função responsável por controlar a agenda presidencial e articular o Palácio com os principais órgãos do Estado. Na prática, trata-se de um posto-chave no centro do poder.
Escalona não é um nome qualquer. Ele integrou o círculo íntimo de segurança de Maduro e também foi assessor de Hugo Chávez. Ou seja: a velha guarda da Revolução Bolivariana segue firme, agora sob nova chefia, mas com os mesmos métodos e lealdades.
A escolha soa como provocação em um momento em que parte da comunidade internacional esperava sinais reais de ruptura após a captura de Maduro. Em vez disso, Delcy opta por blindar o governo com figuras conhecidas pela fidelidade ao antigo regime — um recado claro de que não há pressa alguma em desmontar a engrenagem chavista.
Embora Delcy tenha prometido enfrentar a crise “pela via diplomática” e até acenado com a retomada de contatos com Washington, suas decisões internas apontam noutra direção: controle, militarização e fechamento. A nomeação de mais um oficial das Forças Armadas, Aníbal Coronado, para o Ministério do Meio Ambiente só reforça essa leitura.
O discurso de transição perde força quando os cargos estratégicos continuam nas mãos dos mesmos personagens de sempre. A presença de um ex-guarda-costas de Maduro no coração do novo governo não é detalhe — é símbolo.
Em resumo, Delcy Rodríguez parece deixar claro que não está ali para arrumar as malas, mas para manter o poder aquecido, ainda que sob o rótulo de governo interino. Para muitos venezuelanos, a mudança prometida segue sendo apenas isso: promessa.