
Vigia na sala de estar: PF quer policial dentro da casa de Bolsonaro
Nem traficante na história do Brasil teve vigilância tão íntima — mas o ex-presidente recebe privilégio de monitoramento especial para evitar fuga
A cena é surreal e inédita na política brasileira: a Polícia Federal pediu ao Supremo Tribunal Federal que um agente seja colocado dentro da casa de Jair Bolsonaro, para impedir qualquer tentativa de fuga. A justificativa é que, do contrário, ele poderia correr até a Embaixada dos Estados Unidos e pedir asilo.
Na prática, seria como instalar uma sentinela dentro da sala do ex-presidente, algo que nem criminosos de alta periculosidade — chefes de facções ou barões do tráfico — tiveram de suportar. É a primeira vez na história que se discute um monitoramento tão invasivo, e ao mesmo tempo tão revelador: a desconfiança de que Bolsonaro ainda pode tentar escapar das responsabilidades que a Justiça lhe impôs.
O ministro Alexandre de Moraes já havia determinado que a vigilância fosse feita por policiais penais, mas de forma discreta, sem constranger Bolsonaro nem incomodar os vizinhos do condomínio onde cumpre prisão domiciliar. A PF, no entanto, alegou que esse esquema não é suficiente. Se a tornozeleira eletrônica parar de transmitir sinal — o que pode ocorrer por falha de internet —, haveria tempo para o ex-presidente se evadir.
Segundo a corporação, só a presença física de um policial dentro da residência eliminaria esse risco. O modelo sugerido é o mesmo adotado em 1998 para vigiar o juiz Nicolau dos Santos Neto, condenado por desviar milhões na obra do Fórum Trabalhista de São Paulo.
O pedido ainda depende da análise da Procuradoria-Geral da República. Até agora, Moraes determinou apenas que Bolsonaro seja monitorado “em tempo real”, sem exposição midiática e sem abusos contra sua privacidade — embora privacidade e prisão domiciliar caminhem em lados opostos.
Bolsonaro está em prisão domiciliar desde 4 de agosto, após descumprir medidas cautelares. Ele é obrigado a usar tornozeleira, não pode se aproximar de embaixadas nem manter contato com outros investigados. Em setembro, será julgado junto com ex-integrantes de seu governo por arquitetar um golpe de Estado para impedir a posse de Lula em 2023.
A cada nova decisão, fica claro: Bolsonaro é tratado como um réu que a Justiça teme perder de vista. O contraste é gritante — nunca o Estado brasileiro se mobilizou tanto para vigiar alguém dentro de casa.