
Vitória seletiva: quando a democracia vence… e os criminosos agradecem
Lula comemora o 8 de Janeiro como triunfo histórico enquanto indultos e discursos levantam ironia, desconfiança e repúdio
Em mais um discurso embalado por aplausos previsíveis, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que o 8 de janeiro entrou para a história como o “dia da vitória da democracia”. Segundo ele, o Brasil e o povo brasileiro teriam derrotado, de forma definitiva, os chamados “golpistas” que tentaram tomar o poder à força. Um enredo forte, dramático e cuidadosamente ensaiado — ainda que distante da percepção de muitos brasileiros.
Do alto do Palácio do Planalto, Lula falou em defesa das instituições, da Constituição e da soberania do voto. Disse que a democracia prevaleceu, que os inimigos foram vencidos e que o país saiu mais forte. Tudo muito bonito no discurso. O detalhe incômodo é que, fora do microfone, a realidade parece menos épica e bem mais contraditória.
Enquanto aponta o dedo para uns, o mesmo governo é acusado de estender a mão para outros. Indultos recentes beneficiando criminosos comuns levantaram indignação e ironia: afinal, que democracia é essa que se diz implacável com adversários políticos, mas generosa quando o assunto é soltar presos por decreto? Para críticos, a mensagem passada é clara — o rigor depende de quem está no banco dos réus.
No pronunciamento, Lula voltou a falar em conspirações, planos sombrios e ameaças graves às autoridades, reforçando uma narrativa de permanente estado de alerta. Tudo isso para justificar a ideia de que qualquer discordância se confunde com ataque à democracia. Nesse roteiro, quem questiona vira inimigo; quem aplaude, defensor do bem.
O presidente ainda associou seus opositores a interesses econômicos perversos, concentração de renda e destruição de direitos sociais, como se o país fosse dividido entre os “iluminados da democracia” e os “vilões do atraso”. Uma simplificação conveniente, mas que ignora problemas concretos do presente — economia frágil, serviços públicos em crise e um sentimento crescente de injustiça.
Ao final, Lula cravou, confiante: “O Brasil e o povo venceram”. Para parte da plateia, aplausos. Para outra parte do país, desconfiança. Porque, quando a democracia precisa ser comemorada com discursos triunfalistas enquanto criminosos são perdoados e críticas são tratadas como ameaça, talvez a pergunta correta não seja quem venceu — mas quem realmente está pagando a conta dessa vitória.