
23 anos depois, a Justiça alcança Sérgio Nahas
Empresário condenado pelo assassinato da esposa é preso na Bahia após ser identificado por câmeras de reconhecimento facial
O empresário paulista Sérgio Nahas, hoje com 61 anos, foi preso no último sábado mais de duas décadas após o assassinato da própria esposa, a estilista Fernanda Orfali, morta aos 28 anos em 2002. A prisão aconteceu em Praia do Forte, no litoral da Bahia, um dos destinos turísticos mais disputados do estado, onde ele estava hospedado em um local de alto padrão. A captura só foi possível graças a sistemas de monitoramento e reconhecimento facial. A detenção foi confirmada durante audiência de custódia.
Condenado de forma definitiva pelo crime, Nahas passou a integrar a lista de procurados internacionais da Interpol após decisão judicial que determinou sua prisão. Em maio do ano passado, o Supremo Tribunal Federal encerrou o processo ao rejeitar os últimos recursos da defesa, tornando a condenação irreversível.
Condenação tardia e longa batalha judicial
O julgamento de Sérgio Nahas ocorreu apenas 16 anos depois do crime. Inicialmente, ele foi condenado a sete anos de prisão por homicídio simples. Como o assassinato aconteceu antes da criação da Lei Maria da Penha (2006) e da Lei do Feminicídio (2015), o crime não foi enquadrado nessas legislações. Após recurso do Ministério Público, a pena foi ampliada para oito anos e dois meses.
Durante todo o trâmite judicial, Nahas respondeu em liberdade. A defesa insistiu na tese de que Fernanda sofria de depressão e teria tirado a própria vida. Com a confirmação da condenação pelo STF, a Justiça de São Paulo determinou a expedição do mandado de prisão, que acabou sendo cumprido apenas agora.
Em declarações ao Estadão, a advogada Adriana Machado Abreu afirmou que o empresário havia se mudado para a Bahia no ano passado e alegou que ele enfrenta sérios problemas de saúde. Segundo ela, não havia intenção de fuga.
No momento da prisão, a Polícia Militar da Bahia informou ter apreendido 13 pinos de cocaína, três telefones celulares e um carro de luxo, um Audi. O caso foi registrado na delegacia da região, e Nahas foi encaminhado à Polinter, setor responsável por custodiar pessoas procuradas pela Justiça.
O crime que marcou uma história de violência
Segundo a acusação, no dia 14 de setembro de 2002, Sérgio Nahas matou Fernanda Orfali com um tiro no peito dentro do apartamento do casal, em Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo. As investigações indicaram que Fernanda havia descoberto o uso de drogas e traições por parte do marido, o que teria intensificado conflitos no relacionamento. O temor de uma separação e da divisão do patrimônio também aparece como possível motivação do crime.
A arma utilizada, que não possuía registro legal, era de propriedade de Nahas. Ele chegou a ser preso por 37 dias por posse ilegal de arma, mas foi liberado e não retornou ao sistema prisional naquele momento. À polícia, afirmou ter ouvido um disparo vindo do closet e encontrado a esposa ferida. No entanto, exames periciais não identificaram resíduos de pólvora nas mãos de Fernanda, enfraquecendo a versão de suicídio sustentada pela defesa.
Mais de 20 anos depois, o caso volta ao centro das atenções — não apenas pelo tempo que levou para a Justiça agir, mas pelo retrato cruel de uma violência que, à época, ainda não recebia o nome que hoje carrega: feminicídio.