
8 de janeiro vira palco previsível no governo Lula
Veto à dosimetria confirma que o Planalto não daria outra resposta
Não houve surpresa. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve vetar o Projeto de Lei da Dosimetria justamente no dia 8 de janeiro, data escolhida para lembrar os três anos da tentativa de golpe. A informação foi confirmada pelo líder do PT no Senado, Jacques Wagner, e apenas reforça aquilo que já era esperado: Lula faria exatamente isso — não haveria outra resposta possível dentro da lógica do governo.
Segundo Wagner, o Planalto é frontalmente contrário ao projeto e o veto será usado como um gesto político simbólico. Depois disso, caberá ao Congresso decidir se mantém ou derruba a decisão presidencial. O roteiro é conhecido, ensaiado e previsível.
O PL da Dosimetria, aprovado no Senado por 48 votos a 25, altera regras da execução penal e pode resultar na redução de penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Para o governo, a proposta é inaceitável. Para parte do Congresso, trata-se de um debate jurídico. Para Lula, virou bandeira política.
Cerimônia institucional ou ato de confronto?
Embora aliados tenham aconselhado o presidente a não usar a solenidade do 8 de janeiro para anunciar o veto — evitando constrangimento com os chefes do Legislativo —, a decisão parece caminhar justamente para transformar a data em um ato político explícito, não apenas institucional.
A cerimônia, que deveria se concentrar na defesa da democracia e das instituições, corre o risco de se tornar mais um capítulo da disputa entre Poderes. O próprio governo reconhece o potencial de atrito, mas prefere avançar mesmo assim.
Na prática, o evento deixa de ser apenas uma lembrança histórica e passa a funcionar como palanque, reforçando a narrativa governista e mantendo o clima permanente de enfrentamento político.
Memória seletiva e discurso repetido
O PT já convocou militantes para atos nas ruas no mesmo dia. Em vídeo, Lula afirma que a sociedade não pode esquecer o 8 de janeiro e critica quem “não soube perder a eleição”. O discurso é forte, repetido e direcionado — e não busca conciliação.
Enquanto isso, o STF também prepara um evento interno, com exibição de documentário sobre os danos causados aos prédios públicos, estimados em R$ 12 milhões. Tudo cuidadosamente alinhado para reforçar uma única narrativa.
O problema, apontam críticos, é que o governo escolhe o que lembrar e quando lembrar, transformando datas institucionais em instrumentos políticos. O veto ao PL da Dosimetria no 8 de janeiro não será apenas um ato administrativo — será um recado claro.
No fim das contas, o desfecho confirma o óbvio: Lula não daria outra resposta. A democracia é o discurso. O confronto, a prática.