Cerimônia do 8 de Janeiro: memória seletiva ou palco político?

Cerimônia do 8 de Janeiro: memória seletiva ou palco político?

Enquanto Lula prepara solenidade pela democracia, escândalos e crises seguem fora do roteiro

O governo Lula se mobiliza para realizar, nesta quinta-feira, uma cerimônia solene em memória dos atos de 8 de janeiro. A promessa oficial é defender a democracia, exaltar as instituições e reafirmar o compromisso com o Estado de Direito. Mas a pergunta que ecoa fora do Palácio do Planalto é simples — e incômoda: o que exatamente será lembrado… e o que será convenientemente esquecido?

Aliados do presidente aconselham Lula a não vetar, durante o evento, o projeto da dosimetria aprovado pelo Congresso, para evitar constrangimentos com os chefes do Legislativo. A recomendação mostra que o clima é menos institucional do que aparenta: o receio não é a democracia, mas o desgaste político em rede nacional.

A cerimônia ocorre em meio a um cenário nada solene. Escândalos recentes passam longe do roteiro oficial:
– o caso do Banco Master,
– denúncias envolvendo o INSS,
– questionamentos sobre mesadas, vínculos familiares e relações políticas nebulosas,
– a ex-nora envolvida em suspeitas de desvio de verbas da educação,
– o irmão ligado a entidades sindicais sob investigação,
– e estatais que acumulam prejuízos, como Correios, além de outras que caminham para o vermelho histórico.

Tudo isso, ao que parece, não cabe na cerimônia da “defesa da democracia”.

Democracia com filtro

O Planalto trata o evento como um marco simbólico, agora reforçado pelas condenações no STF relacionadas à tentativa de golpe. No discurso, a narrativa é clara: lembrar o passado para evitar sua repetição. Na prática, críticos apontam que a memória é seletiva e o silêncio, estratégico.

Lula já sinalizou que pretende vetar o projeto da dosimetria, que reduz penas e beneficia condenados — entre eles Jair Bolsonaro e aliados. A dúvida não é se haverá veto, mas quando e em qual palco. Parte da base defende que o presidente use o 8 de janeiro como cenário para o gesto político. Outros temem que isso transforme a cerimônia em mais um capítulo de atrito entre os Poderes.

Palanque disfarçado de solenidade

Além da cerimônia oficial, estão previstos atos com movimentos sociais, militantes e discursos que extrapolam o 8 de janeiro. O PT convocou manifestações nacionais e tenta agregar temas como “soberania da América Latina”, aproveitando o contexto internacional e a crise na Venezuela.

No fim, a solenidade que deveria unir o país em torno das instituições corre o risco de se tornar mais um evento partidário, onde só um lado da história ganha microfone.

A democracia, dizem, precisa ser lembrada. Mas talvez também precise de algo mais difícil: autocrítica, coerência e responsabilidade. Sem isso, cerimônias viram encenação — e o país segue pagando a conta de um governo que fala em reconstrução enquanto entrega desgaste, prejuízo e divisão.

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