A conta chegou para quem nem sabe falar: INSS descobre R$ 12 bilhões em dívidas no nome de crianças

A conta chegou para quem nem sabe falar: INSS descobre R$ 12 bilhões em dívidas no nome de crianças

Levantamentos mostram bebês endividados e milhares de consignados feitos em benefícios destinados a menores; novo presidente do INSS tenta frear a farra bancária.

A cena é tão absurda que parece ficção: mais de 763 mil empréstimos consignados estão ativos hoje em nome de crianças e adolescentes — alguns, de bebês que mal aprenderam a respirar. O valor médio dessas dívidas? R$ 16 mil, segundo o novo presidente do INSS, Gilberto Waller Júnior.

Waller assumiu o comando após a queda de Alessandro Stefanutto, demitido e posteriormente preso depois que o Metrópoles revelou o escândalo dos descontos indevidos em aposentadorias e pensões. A crise se tornou uma avalanche, empurrando para fora não só Stefanutto, mas também o então ministro da Previdência, Carlos Lupi.

A farra que virou operação policial

Desde dezembro de 2023, reportagens do Metrópoles vinham mostrando o rombo: entidades que descontavam mensalidades de aposentados inflaram suas arrecadações para R$ 2 bilhões em um ano, mesmo respondendo a milhares de processos por fraude. O escândalo virou caso de Polícia Federal, rendeu um inquérito e se transformou na Operação Sem Desconto, deflagrada em abril.

Entre os dados levantados está um ponto que revolta qualquer um: o INSS autorizou como “ativos” empréstimos descontados diretamente de benefícios destinados a menores. Somando tudo, já são R$ 12 bilhões emprestados — dinheiro tomado no nome de quem sequer tem idade para assinar o próprio nome.

Regra caiu tarde demais

Em agosto deste ano, o INSS revogou a norma que permitia este tipo de consignado para menores. Só que o estrago já estava feito: 395 mil contratos foram registrados só em 2022, principalmente em benefícios como o BPC e pensões por morte. A faixa etária mais atingida é de 11 a 13 anos, mas há casos muito mais chocantes.

Bebês já começam a vida endividados

João do Vale, advogado da Associação Brasileira de Defesa da Criança e do Adolescente, teve acesso a um relatório interno do INSS. E o que encontrou foi perturbador:
15 bebês com menos de 1 ano já tinham dívidas em 2022.

Um dos casos: uma criança nasceu em maio e, em dezembro, já carregava um consignado de R$ 15.593, parcelado em 84 vezes. Em outro, um bebê de três meses teve um empréstimo via cartão consignado de R$ 1.650 colocado no próprio CPF. É a iniciação financeira forçada — e criminosa.

INSS tenta limpar a casa

Waller afirma que todos os acordos com instituições financeiras estão sendo revisados. O número de bancos parceiros caiu de 74 para 59 após a identificação de irregularidades. E, desde maio, só é possível contratar consignado com a biometria do verdadeiro beneficiário — uma tentativa óbvia, mas tardia, de impedir fraudes.

Compartilhe nas suas redes sociais
Categorias
Tags