
A grande obra do PVC: quando quatro canos viram “marco histórico” do PT
Randolfe inaugura comedouro de cachorro com pompa oficial e vira símbolo da política que transforma o mínimo em espetáculo
Se alguém ainda tinha dúvida de que a política brasileira é especialista em transformar qualquer coisa em palanque, o senador Randolfe Rodrigues tratou de esclarecer. O líder do governo do Partido dos Trabalhadores no Congresso inaugurou, com direito a discurso e registro nas redes sociais, um comedouro para cães feito com quatro canos de PVC fixados em um muro.
Isso mesmo: quatro tubos, alguns potes de ração e uma pequena cobertura. E pronto — estava inaugurada a “obra”.
O espaço, batizado de “Espaço Orelha”, foi instalado no Porto do Povo, em Santana (AP), com a presença do governador Clécio Luís. A estrutura é simples, funcional e voltada ao cuidado com animais de rua — algo legítimo e até louvável. O problema não é alimentar cães abandonados. O problema é tratar quatro canos de PVC como se fossem a transposição do São Francisco.
No vídeo publicado pelo próprio senador, ele fala em compromisso com o bem-estar animal e em uma cidade mais humana. O tom é solene. A encenação, cuidadosamente registrada. A repercussão, inevitável.
Nas redes sociais, a ironia veio em ondas. Internautas questionaram se aquilo era real ou montagem de inteligência artificial. Outros perguntaram quanto teria custado a “megaestrutura”. Comentários como “dezesseis anos de Senado para inaugurar quatro canos” e “é para isso que pagamos impostos?” dominaram o debate.
E aí surge o incômodo maior: o Brasil enfrenta problemas graves de infraestrutura, saúde precária, educação em crise e estados que ainda se recuperam de apagões históricos. Diante desse cenário, a prioridade institucional vira uma cerimônia para oficializar um comedouro improvisado?
É impossível não enxergar o simbolismo. A política do espetáculo substitui a política de resultados. O ato simples — que poderia ter sido realizado discretamente por voluntários — ganha moldura, discurso e hashtag.
O PT, que sempre se apresenta como partido das grandes transformações sociais, agora entrega como vitrine uma instalação de PVC. Fica a pergunta, carregada de ironia: essa é a “grande obra” que simboliza o compromisso com o povo?
Ninguém é contra ações de proteção animal. Ao contrário. O que causa repúdio é a necessidade quase compulsiva de transformar o básico em propaganda. O gesto poderia ser humilde. Mas virou palco.
No fim das contas, os cães de rua ganharam um ponto de ração. Já a política brasileira ganhou mais um episódio que parece roteiro de sátira — mas é realidade. Porque, por aqui, até quatro canos de PVC podem ser tratados como monumento.