
Rastro de milhões: o império imobiliário que cerca Toffoli em Brasília
Imóveis avaliados em cerca de R$ 26 milhões, valores declarados abaixo do mercado e negócios que levantam suspeitas — quando se trata de poder, a transparência deveria ser regra, não exceção
O nome do ministro Dias Toffoli volta ao centro de uma polêmica que não envolve decisões judiciais, mas patrimônio. Registros imobiliários mostram que ele, sua filha e sua ex-esposa acumulam imóveis no Distrito Federal que, juntos, alcançam aproximadamente R$ 26 milhões em valor de mercado.
O dado, por si só, já chama atenção. Mas o que provoca ainda mais questionamentos são os valores declarados nas escrituras — frequentemente bem abaixo dos preços praticados nas regiões mais valorizadas de Brasília.
A filha do ministro, Pietra Ortega Toffoli, de 25 anos, adquiriu um apartamento de alto padrão no Setor Noroeste, área conhecida por ter o metro quadrado mais caro do DF. O imóvel de 154 m² foi registrado por R$ 2,5 milhões, sem indicação de financiamento bancário — o que sugere pagamento à vista.
O próprio Toffoli também comprou, em 2024, um apartamento menor no mesmo bairro. Corretores ouvidos estimam o valor de mercado em torno de R$ 600 mil. Na escritura, porém, o preço declarado foi de R$ 183 mil. Além disso, o documento registra a concessão de “usufruto vitalício” a uma mulher identificada como empregada doméstica.
Situação semelhante ocorreu com uma quitinete no Lago Norte, adquirida por R$ 79,5 mil — quando já valia entre R$ 240 mil e R$ 250 mil à época. Também nesse caso o usufruto foi destinado a outra empregada doméstica. Coincidência demais para um único núcleo familiar?
Uma casa de 451 m² com piscina, também no Lago Norte, foi transferida para a filha do ministro com valor declarado de R$ 2,3 milhões, embora corretores apontem que imóveis semelhantes na região não saem por menos de R$ 4,2 milhões.
A ex-esposa do ministro, a advogada Roberta Rangel, também aparece na lista de aquisições relevantes. Desde a ida de Toffoli para o Supremo Tribunal Federal, o número de processos dela nas cortes superiores aumentou significativamente. No mesmo período, ela comprou apartamentos no Noroeste e uma cobertura de alto padrão na Asa Norte, também sem registros de financiamento.
Somado a isso, o escritório Rangel Advogados — antigo “Toffoli & Rangel Advogados” — possui imóveis que ultrapassam R$ 12 milhões em valor de mercado. Um terreno no Lago Norte, adquirido em 2009 por R$ 1 milhão, hoje é estimado em pelo menos R$ 7 milhões. Outro conjunto de salas comerciais próximo aos tribunais superiores vale cerca de R$ 4,4 milhões.
Como se não bastasse, o ministro admitiu recentemente participação societária na empresa Maridt Participações S.A., registrada com capital social de apenas R$ 150, mas que detinha participação em um resort no interior paulista.
Toffoli afirma que todo o patrimônio está devidamente declarado à Receita Federal e que as origens dos recursos são lícitas. Ainda assim, a sucessão de negócios com valores abaixo do mercado e a rápida expansão patrimonial alimentam desconfiança.
É impossível ignorar o contraste: quando se trata de figuras públicas comuns, qualquer centavo vira escândalo imediato. Mas quando o assunto envolve um ministro da mais alta Corte do país, a sensação que fica para muitos é a de silêncio constrangedor.
A Justiça deve ser o símbolo máximo de lisura. Porém, diante de cifras milionárias, avaliações discrepantes e relações familiares entrelaçadas com poder, a pergunta ecoa com força: quem fiscaliza os fiscalizadores?
Num país onde o cidadão comum luta para financiar a própria casa em décadas de prestações, ver imóveis milionários sendo adquiridos à vista — e registrados por valores abaixo do mercado — gera indignação legítima. Transparência não é favor. É obrigação.