
A rainha do samba oficial: Janja, a FAB e a conta que sobra para o povo
Enquanto o Brasil aperta o cinto, a primeira-dama desfila entre assessores, avião militar e homenagem bancada com dinheiro público
A cena parece saída de um roteiro mal disfarçado: luxo institucional, clima de camarote e zero pudor com o dinheiro público. A primeira-dama Rosângela da Silva (Janja) embarcou em um avião da Força Aérea Brasileira para cumprir uma “agenda institucional” no Rio de Janeiro que incluiu, convenientemente, uma visita ao barracão da escola de samba que homenageou seu marido, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tudo muito simbólico. Tudo muito… conveniente.
A viagem ocorreu em outubro de 2025. No voo, Janja não estava sozinha — longe disso. Levou pelo menos seis assessores, todos lotados no Gabinete Pessoal da Presidência, todos recebendo diárias pagas com dinheiro público. Porque, claro, visitar uma escola de samba exige aparato de chefe de Estado. Ou de rainha.
No mesmo avião estavam a ministra Luciana Santos, acompanhada de sua equipe, e a ministra Anielle Franco. Oficialmente, havia um evento do Ministério da Ciência e Tecnologia no Palácio da Cidade. Extraoficialmente, o momento mais animado do dia parece ter sido o passeio pelo barracão da Acadêmicos de Niterói — escola que resolveu transformar Lula em enredo de Carnaval.
Durante a visita, Janja circulou entre costureiras, dirigentes e elogios ao samba-enredo, chegando a confidenciar, em tom de orgulho doméstico, que Lula estaria “apaixonado” pela homenagem. Difícil saber onde termina a primeira-dama e começa a fã número um com acesso irrestrito à máquina pública.
O detalhe incômodo — aquele que o governo prefere tratar como rodapé — é que a Acadêmicos de Niterói recebeu cerca de R$ 9,6 milhões em recursos públicos para o desfile. A mesma escola cujo presidente foi recebido mais de uma vez no Palácio do Planalto. Tudo dentro da lei, dirão. Tudo dentro da ética? Aí já é outra fantasia.
O enredo, pomposamente batizado de “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, terminou em fracasso na avenida: a menor pontuação do Grupo Especial e o rebaixamento da escola. Nem o dinheiro público, nem a visita da primeira-dama, nem o marketing político salvaram o desfile.
Janja ainda cogitou desfilar com a escola, mas desistiu na última hora. Talvez tenha percebido que, para quem já viaja de FAB com comitiva, o tom estava ficando exagerado demais até para o Carnaval.
Procurada, a primeira-dama não respondeu. O silêncio, nesse caso, diz muito. Enquanto o governo discursa sobre desigualdade, responsabilidade e sensibilidade social, a prática segue outra batida: quem manda, voa; quem paga, assiste de longe. E o povo, como sempre, fica com a conta — sem direito a camarote.