
Lula descobre a “fábrica de mentiras” — e aponta para a direita
Enquanto evita autocrítica, presidente ataca Trump e repete o velho discurso de que fake news só existem do outro lado
Mais uma vez, Luiz Inácio Lula da Silva resolveu apontar o dedo. O alvo da vez foi o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e, no pacote, toda a direita mundial — tratada pelo petista como dona de uma suposta “indústria de mentiras” que funcionaria a pleno vapor, 24 horas por dia.
Durante um evento em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, Lula afirmou que a campanha de Trump teria disparado 2 bilhões de mensagens contra a adversária democrata Kamala Harris na semana anterior à eleição americana de 2024. O dado foi usado como exemplo do que o presidente brasileiro chama de “máquina profissional de desinformação”, convenientemente localizada sempre fora do campo ideológico da esquerda.
O discurso foi feito diante de uma plateia amiga, daquelas que aplaudem antes do fim da frase. No palco, Lula reclamava do uso excessivo de celulares — ironicamente, enquanto discursava sobre redes sociais — e aproveitou para transformar o celular alheio no grande vilão da política contemporânea.
Segundo ele, a direita teria aprendido a explorar o individualismo, o vício em telas e a fofoca digital. Curiosamente, nada foi dito sobre os exércitos de militância virtual, narrativas coordenadas e campanhas agressivas que também operam — sem descanso — no campo progressista. Para Lula, a fábrica de fake news tem lado único. Coincidência? Difícil acreditar.
Em outro evento no mesmo dia, o presidente voltou a mirar Trump, acusando o republicano de tentar “governar o mundo” por meio das redes sociais. Para Lula, seria impossível respeitar o povo sem “olhar nos olhos”, ainda que boa parte de sua comunicação política hoje também passe por vídeos editados, posts calculados e discursos roteirizados.
O contraste chama atenção: quando a direita usa redes sociais, é manipulação; quando a esquerda faz o mesmo, é mobilização democrática. A lógica é simples, repetida e conveniente.
Apesar do tom ácido, Lula e Trump vêm mantendo conversas amistosas nos bastidores, especialmente por causa das negociações comerciais e da tentativa brasileira de reverter tarifas impostas pelos Estados Unidos. Segundo o próprio Planalto, houve até “química” entre os dois líderes — o que torna os ataques públicos ainda mais curiosos.
No fim das contas, o discurso segue o mesmo script conhecido: a esquerda se coloca como vítima da mentira alheia, enquanto ignora seus próprios métodos, e Lula reforça a narrativa de que toda crítica vem de uma engrenagem maligna da direita. Uma retórica confortável, previsível — e cada vez menos convincente para quem observa fora da bolha.