
Advogada investigada por suposta ligação com facção obtém recolhimento domiciliar em Mato Grosso
Dayane Karol Moreira da Silva, alvo da Operação Replay, deixou a prisão preventiva e deverá cumprir medida cautelar com monitoramento eletrônico; defesa sustenta que ela desconhecia a origem ilícita dos negócios
A Justiça de Mato Grosso concedeu recolhimento domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica, à advogada Dayane Karol Moreira da Silva, investigada na Operação Replay, que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro associado ao núcleo financeiro do Comando Vermelho no Estado. A decisão foi assinada pela juíza Edna Ederli Coutinho, do Núcleo 4.0 do Juiz das Garantias de Cuiabá, na sexta-feira (21).
Dayane havia sido presa em 30 de julho, durante a operação, que atingiu um grupo apontado pelas autoridades como responsável pela administração, movimentação e ocultação de patrimônio ligado à organização criminosa.
A decisão não significa absolvição nem encerramento da investigação. A advogada continua sendo investigada e passa a responder ao processo sob uma medida menos gravosa do que a permanência no sistema prisional.
Defesa afirma que advogada desconhecia esquema
Um dos principais argumentos apresentados pela defesa é que Dayane possui um filho menor de idade, circunstância considerada no pedido para substituir a prisão por uma medida domiciliar. O advogado Jean Carlos Pereira também apresentou novo habeas corpus ao Tribunal de Justiça de Mato Grosso buscando a liberdade da investigada.
A defesa contesta a interpretação dada pela investigação às atividades profissionais da advogada. Segundo Jean Carlos, Dayane teria realizado serviços jurídicos relacionados à regularização de imóveis sem saber que a pessoa que a contratou seria um chamado “laranja”.
A versão apresentada pela defesa é que a advogada atuou profissionalmente, mediante contratos, e não tinha conhecimento de que os negócios poderiam estar relacionados a lavagem de dinheiro.
O que dizem os investigadores
De acordo com a Polícia Civil, Dayane teria atuado na regularização documental de imóveis registrados em nome de terceiros, procedimento que, segundo a investigação, poderia contribuir para conferir aparência de legalidade a patrimônios de origem suspeita.
A investigação relaciona essa atividade ao chamado núcleo financeiro da facção.
O nome que aparece como uma das peças centrais da apuração é Paulo Witer Farias Paelo, conhecido como “W.T.”, apontado pela polícia como tesoureiro da organização criminosa. Ele está preso desde 2024.
Segundo os investigadores, mesmo encarcerado, W.T. teria mantido capacidade de comunicação com integrantes que permaneciam em liberdade. A apuração afirma que aparelhos celulares utilizados dentro da penitenciária teriam permitido o repasse de orientações relacionadas à movimentação financeira, aquisição de patrimônio e ocultação de bens.
Operação atingiu 15 pessoas
A Operação Replay teve como alvo 15 pessoas. A investigação, segundo a Polícia Civil, surgiu como desdobramento de operações anteriores — Apito Final, Fair Play e Tempo Extra — e passou a concentrar atenção na estrutura responsável por preservar e movimentar patrimônio atribuído ao grupo.
A hipótese investigativa é que, apesar das prisões e ações policiais anteriores, a estrutura financeira teria continuado funcionando por meio de pessoas de confiança, empresas, imóveis e outros mecanismos destinados a dificultar a identificação da origem dos recursos.
R$ 38 milhões em bens e ativos bloqueados
A dimensão financeira da operação também chama atenção.
Segundo a Polícia Civil, a Justiça determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 38 milhões em patrimônio relacionado aos investigados.
Desse total, cerca de R$ 20 milhões correspondem a imóveis e veículos de luxo, incluindo propriedades de alto padrão localizadas em Santa Catarina. Outros R$ 18 milhões foram bloqueados em ativos financeiros.
O objetivo das medidas patrimoniais é impedir que os bens e recursos investigados sejam transferidos, vendidos ou ocultados enquanto a apuração prossegue.
Investigação ainda está em andamento
O caso permanece na esfera investigativa. As acusações apresentadas pela Polícia Civil ainda precisam ser analisadas no curso do processo, e a defesa nega que Dayane tenha conhecimento de qualquer esquema de lavagem de dinheiro.
A mudança da prisão para o recolhimento domiciliar representa, portanto, uma alteração na situação cautelar da advogada, e não uma conclusão sobre sua responsabilidade criminal.
O episódio coloca novamente em evidência a estratégia das autoridades de atingir não apenas os integrantes diretamente envolvidos em crimes violentos, mas também estruturas financeiras e patrimoniais utilizadas, segundo as investigações, para sustentar organizações criminosas.
No centro dessa disputa está uma questão que deverá ser esclarecida pela Justiça: até que ponto a atuação profissional de uma advogada em negócios imobiliários pode ser considerada parte consciente de uma estrutura de lavagem de dinheiro — e em que momento o exercício legítimo da advocacia teria sido transformado, deliberadamente ou não, em instrumento para ocultar patrimônio ilícito.