
Aliados de Flávio Bolsonaro defendem modelo Bukele para a segurança e propõem linha dura contra o crime no Brasil
Alfredo Gaspar, Sergio Moro e Guilherme Derrite aproximam suas propostas da estratégia adotada por Nayib Bukele em El Salvador; modelo prioriza encarceramento, endurecimento penal e ofensiva contra organizações criminosas, mas também é criticado por restrições a garantias e denúncias de abusos
A segurança pública entrou de vez no centro da campanha de Flávio Bolsonaro para a Presidência da República. Em torno do candidato do PL, nomes importantes de sua chapa e de seu grupo político passaram a defender uma política inspirada no modelo adotado pelo presidente de El Salvador, Nayib Bukele, conhecido pela ofensiva contra as organizações criminosas e pela utilização de um regime de exceção para ampliar o poder do Estado na repressão às gangues.
Entre os defensores dessa linha estão o candidato a vice-presidente Alfredo Gaspar, o senador Sergio Moro e o deputado Guilherme Derrite. A proposta é apresentada como uma alternativa ao que eles consideram uma resposta insuficiente do Estado brasileiro diante da criminalidade.
O discurso tem um eixo claro: mais prisão, penas mais duras, maior capacidade penitenciária, combate mais agressivo às organizações criminosas e menor tolerância com crimes que hoje, na avaliação do grupo, ainda produzem sensação de impunidade.
A inspiração em Bukele, porém, não é uma escolha neutra. El Salvador tornou-se internacionalmente conhecido por reduzir drasticamente os índices de homicídios, mas o mesmo modelo passou a ser alvo de denúncias de prisões arbitrárias, tortura, mortes sob custódia e restrições a garantias fundamentais. É justamente essa contradição que acompanha a proposta brasileira.
O modelo que ganhou espaço na campanha
O presidente Nayib Bukele transformou a segurança pública na principal bandeira de seu governo.
Depois de uma explosão de violência provocada principalmente pela atuação de gangues como a Mara Salvatrucha (MS-13) e o Barrio 18, o governo salvadorenho adotou medidas extraordinárias a partir de 2022.
Foi decretado um regime de exceção, ampliando a capacidade do Estado de prender suspeitos e restringindo determinadas garantias processuais.
Milhares de pessoas foram presas.
As forças de segurança ganharam maior liberdade de atuação.
E o governo passou a apresentar a queda dos homicídios como a principal prova de que a estratégia estava funcionando.
É essa experiência que passou a inspirar parte do campo político ligado a Flávio Bolsonaro.
Alfredo Gaspar e a promessa de endurecimento
O vice de Flávio, Alfredo Gaspar, defende uma política de maior rigor contra criminosos e considera que o Brasil precisa enfrentar o crime organizado com instrumentos mais contundentes.
Sua presença na equipe reforça a ideia de que a segurança não será tratada como apenas mais uma área de governo.
A prioridade é aumentar a capacidade do Estado de prender, manter presos e impedir que líderes criminosos continuem comandando suas organizações de dentro das penitenciárias.
Essa última questão é especialmente importante no Brasil.
Sergio Moro entra na defesa do modelo
O senador Sergio Moro também passou a defender a experiência salvadorenha como referência.
Moro possui trajetória política e profissional profundamente associada ao combate ao crime organizado e à corrupção.
Seu apoio ao modelo Bukele acrescenta ao discurso de Flávio uma imagem de experiência institucional.
Não é apenas o argumento de um candidato em campanha.
É a defesa de uma política criminal feita por alguém que ocupou o cargo de ministro da Justiça e Segurança Pública.
Moro também anunciou propostas inspiradas no modelo salvadorenho no Paraná, entre elas a intenção de criar uma estrutura penitenciária de segurança máxima associada simbolicamente a El Salvador.
Guilherme Derrite e a experiência paulista
Outro nome importante é Guilherme Derrite, que possui trajetória ligada à segurança pública de São Paulo.
A presença de Derrite na discussão mostra que a inspiração não está restrita ao plano federal.
A ideia de endurecimento penal também vem sendo levada para propostas estaduais.
Isso significa uma tentativa de transformar o modelo em uma agenda ampla, capaz de envolver União, Estados e sistema penitenciário.
O discurso central: prender mais
O ponto comum entre esses políticos é a convicção de que o Brasil prende pouco para o tamanho de sua criminalidade.
Flávio Bolsonaro resumiu essa posição ao dizer que o país “tem pouco preso” e que deveria ter mais.
A frase provocou críticas porque o Brasil já possui uma das maiores populações prisionais do mundo.
Portanto, o significado da declaração não é que o sistema brasileiro seja pequeno.
A ideia é que, na avaliação do candidato e de seus aliados, uma parcela maior dos criminosos deveria permanecer encarcerada por mais tempo.
A proposta de meio milhão de novas vagas
Flávio chegou a defender a criação de aproximadamente 500 mil novas vagas em presídios durante um eventual mandato.
É uma proposta de escala gigantesca.
Não seria apenas uma ampliação marginal do sistema.
Seria uma transformação estrutural.
Exigiria novas penitenciárias, milhares de agentes, recursos permanentes e uma reorganização de todo o sistema de execução penal.
O próprio candidato estimou custos de dezenas de bilhões de reais para a implementação.
A conta que vem depois da construção
Construir uma penitenciária é apenas o começo.
Depois vêm os custos permanentes.
Alimentação.
Energia.
Água.
Medicina.
Segurança.
Manutenção.
Agentes penitenciários.
Transporte.
Tecnologia.
Controle interno.
Uma política de encarceramento em massa cria uma despesa contínua.
Por isso, o eleitor não precisa perguntar somente quantas vagas serão construídas.
Precisa perguntar quanto custará mantê-las por décadas.
A inspiração no Cecot
Um dos grandes símbolos do governo Bukele é o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot).
A megapenitenciária salvadorenha foi construída para concentrar milhares de presos considerados integrantes de organizações criminosas.
As imagens do local tornaram-se uma das marcas da política de segurança de Bukele.
Presos uniformizados, cabeças raspadas, controle rígido e espaços coletivos extremamente vigiados.
Para seus defensores, o Cecot simboliza autoridade.
Para seus críticos, representa uma política carcerária brutal.
O que o modelo promete entregar
Os defensores da estratégia apontam resultados objetivos.
O mais conhecido é a forte queda na taxa de homicídios de El Salvador.
O governo de Bukele afirma que o país passou de um dos mais violentos do mundo para uma das nações com índices muito menores de assassinatos.
Essa transformação é a principal peça de propaganda utilizada para justificar o método.
Flávio e seus aliados observam justamente esse resultado.
Mas existe outro lado
O problema começa quando se observa como esses resultados foram obtidos.
Organizações internacionais de direitos humanos denunciaram casos de detenções sem provas suficientes, tortura, maus-tratos, violência sexual, desaparecimentos e mortes em unidades prisionais.
O governo salvadorenho rejeita essas acusações e sustenta que a repressão é necessária para destruir as estruturas criminosas.
Esse conflito entre segurança e direitos humanos é a principal controvérsia do modelo.
Bukele como inspiração e advertência
El Salvador oferece duas imagens.
A primeira é a do país que conseguiu reduzir brutalmente a violência.
A segunda é a de um Estado que concentrou muito poder para alcançar esse resultado.
A discussão brasileira deveria considerar as duas.
Copiar os resultados sem observar os métodos pode produzir uma política incompleta.
Uma estratégia de segurança eficiente precisa enfrentar o crime.
Mas também precisa preservar a Constituição.
O Brasil possui outra realidade
O Brasil não é El Salvador.
A diferença não é apenas geográfica.
O Brasil possui dimensões continentais, 27 unidades federativas, milhões de quilômetros quadrados e estruturas criminosas muito mais complexas.
Facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho possuem atuação interestadual, conexões internacionais e forte capacidade de movimentação financeira.
A política brasileira, portanto, exigiria uma estratégia diferente em escala e estrutura.
O problema das organizações criminosas dentro dos presídios
Existe ainda um dos maiores desafios.
As prisões brasileiras já foram utilizadas historicamente como espaço de fortalecimento das próprias organizações criminosas.
O PCC, por exemplo, desenvolveu parte de sua estrutura dentro do sistema penitenciário.
Isso significa que simplesmente aumentar o número de presos não basta.
É necessário impedir que os líderes continuem comandando negócios ilegais a partir das celas.
Tecnologia e isolamento
O grupo de Flávio também defende a ampliação do uso de tecnologia para impedir a comunicação de criminosos presos.
Bloqueadores de celular, monitoramento eletrônico, inteligência financeira e sistemas de vigilância poderiam ser utilizados para reduzir a capacidade das facções.
Essa é uma diferença importante em relação à simples política de construir presídios.
A inteligência precisa acompanhar a força
Uma política de segurança moderna não pode ser baseada apenas em força física.
Precisa identificar.
Investigar.
Rastrear.
Antecipar.
Desorganizar.
Apreender dinheiro.
Confiscar patrimônios.
Prender lideranças.
Desmontar redes.
E impedir a recomposição das organizações.
Nesse ponto, a proposta pode combinar o endurecimento defendido por Flávio com mecanismos de inteligência.
O debate sobre penas mais longas
Outra bandeira é o aumento das penas.
Flávio citou crimes patrimoniais, como o furto de celular, como exemplo de condutas que deveriam receber maior punição.
A lógica é criar um sistema em que o custo de cometer determinados crimes seja significativamente maior.
Mas existe um debate jurídico sobre eficácia.
Penas mais altas não garantem automaticamente redução da criminalidade.
O que importa também é a certeza de que o criminoso será identificado e punido.
A certeza da punição
Esse é um ponto que frequentemente aparece em estudos sobre política criminal.
Um criminoso pode temer mais uma alta probabilidade de ser descoberto do que uma pena gigantesca que ele acredita jamais cumprir.
Por isso, investigação eficiente e policiamento qualificado podem ser tão importantes quanto o aumento das penas.
A promessa fala diretamente ao medo
A força eleitoral do discurso de Flávio está no cotidiano.
O brasileiro que teve o celular roubado não está pensando em teorias sobre política criminal.
Quer recuperar a segurança.
Quem vive em uma área dominada por facções quer poder circular livremente.
Quem perdeu um familiar para a violência quer justiça.
É nesse sentimento concreto que a promessa de “mais prisão” encontra força.
A crítica ao modelo Bukele
Os adversários respondem que não existe segurança verdadeira quando ela é obtida ao custo de violações sistemáticas.
Essa crítica não pode ser simplesmente descartada.
Um Estado democrático precisa ser capaz de prender criminosos sem considerar qualquer suspeito automaticamente culpado.
Precisa julgar.
Precisa provar.
Precisa garantir defesa.
Precisa controlar seus próprios agentes.
A crítica ao sistema brasileiro
Ao mesmo tempo, também não é suficiente rejeitar o modelo salvadorenho sem reconhecer os problemas reais do Brasil.
A impunidade é uma preocupação legítima.
A demora judicial é uma preocupação legítima.
A falta de vagas adequadas é uma preocupação legítima.
O domínio das prisões pelas facções é uma preocupação legítima.
A violência cotidiana é uma preocupação legítima.
A resposta precisa enfrentar essas questões.
O debate entre segurança e liberdade
No fundo, a discussão é sobre equilíbrio.
Quanto mais poder é entregue ao Estado para combater o crime, maior deve ser o controle sobre esse poder.
Polícia forte não significa polícia sem fiscalização.
Prisão rigorosa não significa ausência de direitos.
Estado eficiente não significa Estado sem limites.
O que Flávio e seus aliados estão prometendo
A proposta apresentada pelo grupo pode ser resumida em quatro linhas:
mais encarceramento;
mais vagas;
penas mais duras;
maior combate às organizações criminosas.
A referência internacional é Bukele.
A promessa doméstica é adaptar parte dessa estratégia à realidade brasileira.
O que ainda precisa ser explicado
Uma candidatura presidencial não pode ficar apenas no slogan.
Será necessário explicar:
quanto custará a expansão prisional;
onde serão construídas as unidades;
qual será a fonte dos recursos;
quantos agentes serão contratados;
como será combatido o comando de facções;
como serão protegidos os direitos fundamentais;
como funcionará a inteligência;
e qual será a estratégia de ressocialização.
A proposta de Moro
O papel de Sergio Moro merece atenção porque ele tenta conectar o debate nacional à administração estadual.
Seu projeto mostra que a inspiração em Bukele pode ultrapassar a campanha presidencial e chegar diretamente à política estadual.
Isso cria uma possibilidade de coordenação entre governos estaduais e federal.
Mas também cria o desafio de compatibilizar diferentes sistemas de segurança e diferentes competências constitucionais.
A presença de Derrite
Derrite acrescenta outro elemento: a experiência de quem atua diretamente na segurança pública paulista.
Para seus defensores, sua participação oferece conhecimento operacional.
Para críticos, a adoção de uma política ainda mais repressiva exigiria mecanismos rigorosos de fiscalização para evitar abusos policiais e penitenciários.
Alfredo Gaspar e o discurso institucional
Alfredo Gaspar reforça a visão de que o combate ao crime deve ser tratado como prioridade nacional.
A proposta é apresentar a segurança pública como um dos eixos estruturantes do eventual governo.
Não apenas como resposta a crises específicas.
A eleição será também um plebiscito sobre segurança
Essa provavelmente será uma das principais características da campanha de 2026.
O eleitor será colocado diante de escolhas diferentes.
Mais prevenção ou mais repressão?
Mais inteligência ou mais encarceramento?
Penas maiores ou melhor investigação?
Mais polícia ou reforma do sistema penitenciário?
A resposta provavelmente não estará em uma única alternativa.
Observação em destaque
OBSERVAÇÃO: defender o modelo de Bukele não significa necessariamente defender todas as medidas adotadas em El Salvador. Flávio Bolsonaro, Alfredo Gaspar, Sergio Moro e Guilherme Derrite podem utilizar determinados aspectos da experiência salvadorenha como referência sem necessariamente propor a reprodução integral do regime de exceção. A diferença é fundamental: qualquer política brasileira precisaria respeitar a Constituição, o devido processo legal e as competências das instituições nacionais.
A lição mais importante
O Brasil certamente precisa combater suas organizações criminosas com mais eficiência.
Mas a pergunta correta não deveria ser simplesmente:
“quantas pessoas podemos prender?”
Deveria ser:
“como podemos reduzir a criminalidade de forma duradoura?”
A resposta pode incluir prisão.
Pode incluir penas mais duras.
Pode incluir presídios de segurança máxima.
Pode incluir inteligência.
Pode incluir tecnologia.
Pode incluir prevenção.
E pode incluir programas de reinserção.
O risco de transformar segurança em espetáculo
Modelos como o de Bukele possuem forte capacidade de comunicação.
Imagens de grandes prisões e milhares de criminosos sob controle produzem sensação imediata de poder.
Mas segurança pública não é apenas imagem.
É resultado.
Uma prisão gigantesca pode ser impressionante.
A pergunta verdadeira é se ela desmonta as estruturas criminosas ou apenas concentra seus integrantes.
O Brasil precisa de resultado
O eleitor não está interessado em fotografias de presídios.
Quer segurança.
Quer andar na rua.
Quer proteger sua família.
Quer utilizar o telefone sem medo.
Quer transporte público seguro.
Quer comerciantes trabalhando.
Quer policiais protegidos.
Quer justiça.
O modelo que conseguir entregar isso de maneira sustentável será o que terá força.
Entre Bukele e a Constituição
É perfeitamente possível aprender com El Salvador sem copiar El Salvador.
O Brasil pode observar como o país combateu as gangues.
Pode estudar seus sistemas de inteligência.
Pode analisar a política penitenciária.
Pode avaliar o uso da tecnologia.
Pode identificar o que funcionou.
E, ao mesmo tempo, rejeitar práticas que sejam incompatíveis com a Constituição brasileira.
Essa seria uma abordagem mais madura.
Conclusão
A aproximação de Alfredo Gaspar, Sergio Moro e Guilherme Derrite com o modelo de Nayib Bukele revela uma mudança de tom na campanha de Flávio Bolsonaro.
A segurança pública passa a ser apresentada com uma promessa inequívoca:
o Estado precisa prender mais, manter criminosos perigosos afastados das ruas e atacar diretamente as organizações criminosas.
Flávio quer ampliar o sistema penitenciário.
Moro defende uma aproximação explícita com a experiência salvadorenha.
Derrite reforça o discurso de endurecimento.
Gaspar integra essa proposta ao projeto presidencial.
É uma estratégia eleitoral clara e de forte apelo popular.
Mas há uma questão que não pode desaparecer:
El Salvador conseguiu reduzir a violência, mas o caminho escolhido por Bukele também gerou graves acusações de violações de direitos humanos.
Esse é o capítulo que qualquer candidato brasileiro que cite Bukele precisará enfrentar.
O Brasil precisa, sim, de mais segurança.
Precisa de polícia eficiente.
Precisa de investigação.
Precisa combater o PCC, o Comando Vermelho e outras organizações criminosas.
Precisa recuperar o controle das prisões.
Precisa proteger as vítimas.
Mas também precisa preservar aquilo que justamente diferencia o Estado democrático de uma estrutura de pura força:
a lei.
O desafio de Flávio Bolsonaro e de seus aliados será provar que conseguem entregar o primeiro sem destruir o segundo.
Porque prender criminosos é obrigação do Estado.
O verdadeiro teste de um governo é conseguir fazê-lo com eficiência, inteligência, firmeza e dentro das regras que protegem todos os demais cidadãos.