Flávio Bolsonaro abraça modelo de Bukele e diz que Brasil “tem pouco preso”

Flávio Bolsonaro abraça modelo de Bukele e diz que Brasil “tem pouco preso”

Candidato do PL promete criar 500 mil vagas em presídios, defende endurecimento das leis e vê experiência de El Salvador como inspiração; país, porém, mantém regime de exceção e é alvo de denúncias internacionais de violações de direitos humanos

O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transformou a política de segurança de El Salvador, conduzida pelo presidente Nayib Bukele, em uma das principais referências de seu discurso para a área. Após se reunir, em São Paulo, com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública salvadorenho, Flávio afirmou que o Brasil precisa prender mais pessoas e ampliar radicalmente sua estrutura penitenciária.

Tem pouco preso no Brasil. Tinha que ser mais. Só não tem mais porque a legislação é frouxa”, declarou o senador depois do encontro.

A frase resume a linha que o candidato pretende levar para a campanha: endurecimento das penas, expansão do sistema prisional e uma atuação mais agressiva contra criminosos.

Flávio promete criar 500 mil novas vagas em presídios ao longo de quatro anos e defende a construção de cinco unidades federais de segurança máxima em um complexo que chama de “Treva”. A inspiração declarada é o modelo salvadorenho e, particularmente, o Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot), a gigantesca penitenciária construída no governo de Bukele.

O encontro com o ministro de Nayib Bukele

A reunião ocorreu no domingo (30), em um hotel no centro de São Paulo, e durou cerca de uma hora.

Participaram do encontro, além de Flávio e Gustavo Villatoro, o candidato a vice-presidente da chapa, Alfredo Gaspar, o senador e candidato ao governo do Paraná Sergio Moro, o deputado Guilherme Derrite, o deputado André do Prado e Gil Diniz. Trechos da conversa foram registrados para possível utilização na propaganda eleitoral de Flávio.

A própria composição da reunião revela o peso que a segurança pública passou a ocupar dentro do projeto político do grupo.

Não era apenas uma conversa entre autoridades estrangeiras.

Era uma reunião com importantes representantes do campo político de direita no Brasil.

Flávio quer mais prisões

A proposta mais contundente de Flávio é a construção de meio milhão de vagas penitenciárias.

O número é gigantesco.

A promessa significa ampliar de forma extraordinária a capacidade de encarceramento do Estado brasileiro e representa uma mudança profunda na política criminal.

Segundo o candidato, a expansão seria necessária para permitir que condenados permaneçam efetivamente presos por períodos mais longos.

Flávio citou, como exemplo, o furto de celulares, defendendo penas mais severas e uma permanência maior atrás das grades. Em sua proposta, um ladrão de celular poderia começar a cumprir pena de pelo menos oito anos.

O custo da promessa

Existe, porém, uma dimensão financeira que acompanha a proposta.

O próprio Flávio estimou que a abertura das 500 mil vagas custaria entre R$ 35 bilhões e R$ 40 bilhões em quatro anos.

Questionado sobre como financiaria essa expansão em um cenário de restrição orçamentária, o candidato respondeu que pretende cortar despesas, mas não detalhou quais gastos seriam reduzidos.

Também citou a expectativa de novas receitas provenientes da exploração de petróleo na Margem Equatorial.

É uma equação que ainda precisa ser demonstrada.

Construir presídios é apenas o primeiro custo.

Depois vêm agentes penitenciários, alimentação, saúde, energia, manutenção, segurança, tecnologia, transporte e administração.

Uma política de encarceramento em massa possui despesas permanentes.

O Brasil já possui uma população carcerária enorme

A afirmação de que o Brasil “tem pouco preso” precisa ser colocada em perspectiva.

Segundo dados citados pela CartaCapital, o país registrava 964.074 pessoas privadas de liberdade em 2025, número que representava crescimento de 6% em relação a 2024.

O Brasil está entre os países com maior população carcerária do mundo.

Por isso, quando Flávio diz que há “pouco preso”, ele não está descrevendo um sistema pequeno.

Está defendendo a ideia de que, diante da criminalidade brasileira, o número de pessoas encarceradas deveria ser ainda maior.

É uma posição política, não uma constatação de que o Brasil tenha um sistema prisional modesto.

A inspiração em El Salvador

O ponto mais evidente do discurso de Flávio é sua admiração pela experiência salvadorenha.

Segundo o candidato, El Salvador conseguiu “resgatar a soberania” e devolver segurança à população, e por isso a experiência poderia servir de inspiração ao Brasil.

O modelo de Bukele ganhou fama justamente por sua política de combate às gangues.

Depois de uma escalada de homicídios em 2022, o governo salvadorenho decretou um regime de exceção, que permanece em vigor.

Desde então, milhares de pessoas foram presas sob suspeita de ligação com organizações criminosas.

O Cecot virou símbolo

O Cecot é a imagem mais conhecida desse projeto.

A megapenitenciária foi construída para abrigar grandes contingentes de presos acusados de integrar organizações criminosas.

O governo Bukele utiliza o complexo como símbolo de sua política de tolerância zero.

As imagens dos presos uniformizados, com cabeças raspadas e mantidos em grandes ambientes coletivos, tornaram-se uma das principais peças de comunicação do governo salvadorenho.

É exatamente essa lógica de impacto e de endurecimento que Flávio pretende utilizar como referência.

O que Flávio não colocou no centro do discurso

Existe, porém, outro lado da experiência de El Salvador.

O regime de exceção também recebeu fortes críticas de organizações internacionais de direitos humanos.

A Human Rights Watch e a Anistia Internacional denunciaram prisões arbitrárias, tortura, mortes sob custódia e outras violações. Relatórios citados na imprensa apontam que mais de 90 mil pessoas foram presas sob a política de segurança de Bukele e que entre os detidos havia milhares de crianças.

Essas denúncias não constituem simples detalhe da história salvadorenha.

São justamente a principal advertência para qualquer país que pretenda importar aquele modelo.

Villatoro defende o regime de exceção

O ministro Gustavo Villatoro rejeita as críticas internacionais.

Em São Paulo, ele defendeu o estado de exceção como uma ferramenta constitucional utilizada para combater o que chamou de um “Estado criminoso paralelo”.

Villatoro também atacou entidades internacionais de direitos humanos, classificando algumas delas como “hipócritas” e acusando seus críticos de tentar deslegitimar o trabalho do governo.

Segundo ele, a população salvadorenha apoia amplamente a estratégia de Bukele.

A queda dos homicídios

O argumento mais forte dos defensores do modelo é o resultado na taxa de homicídios.

El Salvador passou por uma redução expressiva da violência nos últimos anos, e o governo atribui essa transformação ao combate sistemático às gangues.

É esse resultado que Flávio considera inspirador.

A lógica é simples:

mais repressão, mais prisão e mais controle territorial produziram uma queda muito forte da criminalidade.

Mas os resultados precisam ser avaliados ao lado dos métodos empregados.

A controvérsia sobre direitos fundamentais

O problema começa quando a busca por segurança passa a conviver com detenções sem as mesmas garantias processuais normalmente exigidas em um Estado de Direito.

A política salvadorenha foi associada à suspensão de determinadas garantias constitucionais e a detenções em grande escala.

Para os defensores, isso foi necessário diante da força das gangues.

Para os críticos, abriu espaço para prisões de pessoas sem provas suficientes e para abusos.

É justamente essa fronteira que o Brasil não pode ignorar.

O Brasil não é El Salvador

Outro ponto importante é a diferença de escala.

El Salvador possui cerca de 6,4 milhões de habitantes.

O Brasil tem mais de 200 milhões.

Além disso, o crime organizado brasileiro possui características distintas.

Facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho possuem atuação interestadual e conexões com mercados internacionais.

Prender milhares de membros de organizações criminosas no Brasil é uma operação muito mais complexa do que reproduzir uma política aplicada a um país muito menor.

As facções nasceram também dentro das prisões

Há outro paradoxo.

Especialistas em segurança alertam que presídios podem fortalecer as próprias organizações criminosas que o Estado pretende combater.

PCC e Comando Vermelho cresceram dentro do sistema prisional e utilizam as cadeias para recrutamento e articulação.

Por isso, simplesmente construir novas vagas não garante automaticamente redução do crime.

Flávio reconhece esse risco e afirma que pretende investir em tecnologia para impedir a comunicação entre criminosos presos.

Mais presos ou melhores prisões?

A discussão talvez precise ser deslocada.

A questão não é simplesmente quantas pessoas estão presas.

É preciso perguntar:

quem está preso?

por quê?

por quanto tempo?

sob quais condições?

e o que acontece quando essa pessoa deixa a prisão?

Um sistema penitenciário eficiente precisa separar criminosos extremamente perigosos de presos de menor periculosidade e impedir que os primeiros controlem organizações criminosas de dentro das cadeias.

O discurso de Flávio tem forte apelo eleitoral

A proposta é fácil de compreender.

O cidadão assaltado quer que o criminoso seja preso.

A pessoa que teve o celular roubado quer punição.

A família de uma vítima de homicídio quer justiça.

O comerciante ameaçado quer segurança.

O trabalhador que volta para casa à noite quer poder andar pela rua sem medo.

Nesse ambiente, prometer “mais prisão” produz uma resposta política direta.

Mas segurança não é apenas encarceramento

Investigações eficientes também são necessárias.

Inteligência policial.

Rastreamento de dinheiro.

Confisco de bens de organizações criminosas.

Combate ao tráfico de armas.

Controle de fronteiras.

Policiamento ostensivo.

Polícia científica.

Integração entre estados.

Controle dos presídios.

São medidas que podem atingir diretamente a estrutura financeira e operacional do crime organizado.

A proposta de um Ministério da Segurança Pública

Flávio também defende a criação de uma estrutura federal exclusiva para a segurança pública.

A ideia é separar a área do atual Ministério da Justiça e Segurança Pública.

O candidato considera que a segurança precisa ter prioridade administrativa própria.

A proposta, entretanto, traz uma contradição curiosa: Flávio também promete reduzir ministérios e cargos como parte de seu chamado “tesouraço”.

Criar uma nova pasta significa exatamente ampliar uma estrutura ministerial, ainda que com a justificativa de torná-la mais eficiente.

A direita se aproxima de Bukele

Flávio não está sozinho.

Outros candidatos ligados à direita também passaram a citar o modelo de Bukele como referência.

O encontro em São Paulo contou com Sergio Moro, que anunciou a intenção de construir no Paraná um presídio de segurança máxima chamado “El Salvador”, em homenagem ao modelo salvadorenho.

O fenômeno mostra que a experiência de Bukele deixou de ser apenas uma referência internacional.

Passou a fazer parte do vocabulário eleitoral brasileiro.

A pergunta sobre o Estado

No fundo, a proposta de Flávio envolve uma discussão maior.

Até onde o Estado deve ir para combater o crime?

Pode aumentar penas?

Pode reduzir benefícios?

Pode ampliar o encarceramento?

Pode utilizar tecnologias de vigilância mais agressivas?

Pode restringir determinadas garantias em situações excepcionais?

Cada uma dessas perguntas envolve equilíbrio entre segurança e liberdade.

A frase que resume o projeto

Flávio resumiu sua visão em poucas palavras:

“Tem pouco preso no Brasil. Tinha que ser mais.”

É uma frase forte.

Também é uma frase que revela claramente a prioridade de sua política criminal.

Mais encarceramento.

Penas mais duras.

Mais presídios.

Menos tolerância com determinados crimes.

O problema é transformar slogan em política

A dificuldade começa depois da frase.

Como construir 500 mil vagas?

Quanto dinheiro será necessário?

Onde estarão os presídios?

Como evitar superlotação?

Como contratar agentes?

Como impedir o domínio das facções?

Como garantir que o sistema não vire uma universidade do crime?

Como evitar abusos?

Como respeitar a Constituição?

Essas perguntas não podem ser resolvidas com uma promessa eleitoral.

O que Flávio promete

A proposta pode ser resumida em quatro eixos:

mais vagas penitenciárias;

penas mais duras;

maior tempo de prisão;

inspiração no modelo salvadorenho.

O candidato acredita que a legislação brasileira é frouxa e que a estrutura atual não consegue manter criminosos perigosos fora das ruas por tempo suficiente.

O que a experiência salvadorenha ensina

El Salvador oferece duas lições simultâneas.

A primeira: uma política de repressão intensiva pode produzir resultados muito rápidos contra estruturas criminosas.

A segunda: quando o Estado amplia extraordinariamente seu poder de prender, aumenta também o risco de abusos e violações de direitos.

Quem quiser importar o primeiro resultado precisa enfrentar o segundo problema.

Não existe segurança pública sem escolhas.

A crítica ao entusiasmo com Bukele

A principal fragilidade do discurso de Flávio está justamente na seleção do exemplo.

Ao apresentar El Salvador como inspiração, o candidato enfatiza a queda da criminalidade e a capacidade de prender integrantes de gangues.

Mas as denúncias sobre detenções arbitrárias, tortura e mortes sob custódia também fazem parte da história do modelo.

Ignorar essa parte empobrece o debate.

É possível admirar a redução dos homicídios sem admirar abusos.

É possível endurecer contra facções sem suspender direitos fundamentais.

Essa deveria ser a busca.

Observação em destaque

OBSERVAÇÃO: a declaração de que o Brasil “tem pouco preso” não corresponde ao tamanho absoluto da população carcerária brasileira. Dados citados pela CartaCapital apontam 964.074 pessoas privadas de liberdade em 2025, e outras fontes situam o Brasil entre os maiores sistemas prisionais do mundo. A frase de Flávio deve ser entendida como defesa de um número maior de encarcerados diante da criminalidade, não como constatação de que o país possua poucos presos em termos absolutos.

O custo humano também precisa entrar na conta

Construir presídios pode ser uma necessidade.

Prender criminosos perigosos também.

Mas segurança pública não pode ser medida apenas pelo número de celas ocupadas.

Um sistema que prende muito e recupera pouco pode produzir criminosos mais organizados.

Um sistema que prende sem respeitar garantias pode produzir injustiças.

Um sistema que não controla as próprias prisões pode fortalecer facções.

Portanto, a questão é maior do que quantidade.

O eleitor terá de escolher entre modelos

A eleição de 2026 coloca propostas muito diferentes sobre a mesa.

Flávio oferece um caminho de endurecimento.

Outros candidatos defendem prevenção.

Alguns priorizam inteligência.

Outros apostam em policiamento ostensivo.

Há quem defenda reformas no sistema penitenciário.

O eleitor terá de avaliar não apenas o tom das promessas, mas sua viabilidade.

A promessa de Flávio é uma mudança de escala

Criar meio milhão de vagas não é um ajuste.

É uma transformação estrutural do Estado brasileiro.

Exigirá bilhões.

Exigirá terrenos.

Exigirá obras.

Exigirá servidores.

Exigirá planejamento.

E provavelmente exigirá uma reorganização completa da política penitenciária.

Uma pergunta simples permanece

Depois de conhecer o modelo de Bukele e tudo o que ele envolve, a pergunta para Flávio fica mais ampla:

o Brasil precisa realmente de mais presos ou precisa de um sistema que prenda os criminosos certos, pelo tempo adequado, desmonte suas organizações e não permita que o crime continue funcionando dentro das próprias penitenciárias?

A resposta definirá mais do que uma política criminal.

Definirá o tipo de Estado que Flávio Bolsonaro pretende construir.

Conclusão

O encontro de Flávio Bolsonaro com Gustavo Villatoro mostrou uma escolha clara.

O candidato quer aproximar sua campanha do modelo de segurança de Nayib Bukele.

Quer mais prisões.

Mais vagas.

Penas mais duras.

Menos benefícios.

E uma legislação que, segundo ele, deixe de ser “frouxa”.

Ao mesmo tempo, a experiência que o inspira é marcada por uma contradição impossível de ignorar.

El Salvador reduziu drasticamente a violência, segundo o governo, mas adotou um regime de exceção que recebeu graves acusações de violações de direitos humanos.

Flávio escolheu destacar a primeira parte.

A segunda continuará sendo inevitável.

Porque o Brasil precisa, sim, de uma resposta firme ao crime organizado.

Mas firmeza não significa necessariamente copiar tudo aquilo que outro país fez.

O desafio é muito mais difícil:

prender quem precisa ser preso, desmontar as facções, proteger as vítimas, recuperar o controle das prisões e, ao mesmo tempo, impedir que o próprio Estado ultrapasse os limites da lei.

A frase de Flávio é forte:

“Tem pouco preso no Brasil.”

Agora vem a parte que exige mais do que força de discurso.

Quantos presos? Quanto vai custar? Quem será preso? Como serão administradas essas pessoas? E como garantir que, ao construir novas prisões, o Brasil não construa também novas fábricas de criminosos?

É nessa resposta — e não apenas no número de celas — que estará o verdadeiro teste da política de segurança de Flávio Bolsonaro.

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