Alta do combustível derruba voos no Brasil e expõe falhas do governo na gestão do setor aéreo

Alta do combustível derruba voos no Brasil e expõe falhas do governo na gestão do setor aéreo

Cortes de mais de 2 mil voos e possível novo aumento no querosene revelam impacto direto no bolso do passageiro e na malha aérea nacional

A aviação brasileira entra em turbulência em 2026. Um levantamento com base em dados da Agência Nacional de Aviação Civil aponta que mais de 2 mil voos foram retirados da programação das companhias aéreas para o mês de maio, refletindo o impacto direto da alta no preço do combustível.

A redução, que representa cerca de 2,9% das operações previstas, significa na prática menos 10 mil assentos disponíveis por dia e a retirada de pelo menos 12 aeronaves de médio porte de circulação. Estados como Amazonas, Pernambuco, Goiás, Pará e Paraíba estão entre os mais afetados, com quedas expressivas na oferta de voos.

Nos bastidores, executivos do setor são diretos: o principal responsável é o aumento acumulado de 54% no querosene de aviação (QAV), reajustado no início de abril pela Petrobras. E o cenário pode piorar — há expectativa de um novo aumento já no início de maio, estimado em cerca de 20%.

Embora rotas mais lucrativas, como a ponte aérea entre São Paulo e Rio de Janeiro ou Brasília, ainda estejam preservadas, o corte em trajetos regionais levanta um alerta sobre o isolamento de cidades e o encarecimento das passagens.

A Associação Brasileira das Empresas Aéreas classificou os impactos como “gravíssimos” e reconheceu que as medidas adotadas até agora pelo governo têm efeito limitado diante da escalada dos custos.

Entre as ações anunciadas estão a isenção de PIS/Cofins sobre o combustível, o adiamento de tarifas e promessas de financiamento via Fundo Nacional de Aviação Civil. No entanto, o alívio prometido perdeu força após a própria Petrobras impor juros elevados no parcelamento do combustível — inicialmente de 1,6% ao mês, depois reduzidos para 1,23%, ainda acima da taxa básica de juros.

Na prática, o que se vê é um desencontro entre discurso e execução. Enquanto o governo tenta sinalizar apoio ao setor, decisões operacionais e políticas de preços acabam ampliando a pressão sobre as empresas e, consequentemente, sobre os passageiros.

Companhias aéreas defendem medidas mais estruturais, como a redução de impostos sobre leasing de aeronaves e revisão do IOF, mas até agora não houve avanço concreto nesse sentido.

O resultado já começa a aparecer: menos voos, passagens mais caras e menor acesso ao transporte aéreo. Para o consumidor, a conta chega rápido. Para o setor, a incerteza continua. E, no centro desse cenário, cresce a crítica de que falta uma estratégia clara e eficaz do governo para evitar que a aviação brasileira entre em um ciclo ainda mais restritivo.

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