Amiga de Lulinha cita “sócio” de Nunes Marques em negócio de cannabis e novas mensagens ampliam pressão sobre investigação

Amiga de Lulinha cita “sócio” de Nunes Marques em negócio de cannabis e novas mensagens ampliam pressão sobre investigação

Conversas obtidas pela Polícia Federal apontam que Roberta Luchsinger mencionou o advogado Otto Medeiros como homem “influente” e “sócio do Cássio”; ministro Kassio Nunes Marques nega sociedade e confirma apenas amizade

Novas mensagens atribuídas à lobista Roberta Luchsinger, analisadas no âmbito das investigações da Polícia Federal, acrescentaram mais um elemento ao caso que envolve Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e um projeto de comercialização de cannabis medicinal junto ao governo federal.

De acordo com informações divulgadas pelo Estadão e reproduzidas por outros veículos, Roberta teria afirmado, em conversa sobre a estruturação do negócio, que o advogado Otto Medeiros era “bem influente” e seria “sócio do Cássio”, em aparente referência ao ministro do STF e presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. O ministro, contudo, negou de forma categórica qualquer sociedade com o advogado e afirmou que os dois mantêm uma relação de amizade.

O episódio se insere em uma investigação mais ampla sobre a atuação de Roberta Luchsinger e suas relações com Lulinha. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a PF apontou que a lobista teria dito, em conversas interceptadas, que atuava em nome do filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A defesa de Lulinha nega irregularidades.

O negócio que não saiu do papel

As mensagens tratam de uma tentativa de estruturar um negócio envolvendo produtos derivados de cannabis medicinal e órgãos da administração pública. Segundo os documentos citados nas reportagens, havia uma previsão de remuneração correspondente a 20% do faturamento relacionado à venda desses produtos ao poder público durante determinado período.

Em 15 de maio de 2024, o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, enviou um pedido ao escritório de Otto Medeiros solicitando proposta para prestação de serviços jurídicos relacionados ao projeto. Dias depois, Roberta discutiu a participação do advogado e a divisão da remuneração.

As conversas revelam uma preocupação da lobista com o controle dos valores e com a forma como os recursos eventualmente seriam administrados. Foi nesse contexto que ela teria descrito Otto como alguém influente e feito a referência a uma suposta sociedade com “Cássio”.

Mas há um ponto fundamental: a afirmação de Roberta não comprova que a sociedade existisse.

Kassio Nunes Marques respondeu ao caso afirmando que “não é e nunca foi sócio” de Otto Medeiros em qualquer empreendimento. O ministro confirmou a amizade e informou que se declara impedido em processos nos quais o advogado atua no STF. Otto Medeiros também negou, segundo as reportagens, manter relação societária com o ministro.

Relação anterior entre Otto e Lulinha

O advogado citado nas mensagens já possuía relações profissionais anteriores com Lulinha. Segundo a reportagem reproduzida pelo Política Livre, Otto Medeiros teria atuado em processos tributários do empresário e sido apresentado à lobista pelo próprio filho do presidente.

Essas relações anteriores passaram a integrar o contexto examinado pelas reportagens sobre o caso, embora a existência de relações profissionais ou pessoais, por si só, não demonstre participação em eventual irregularidade.

A investigação também examina a atuação de Roberta nas articulações do projeto e suas alegações de que estaria autorizada a falar em nome de Lulinha. A PF, segundo informações publicadas pela Folha, apontou diálogos nos quais ela chegou a dizer a interlocutores: “Eu sou o Fábio”, circunstância interpretada pelos investigadores como um possível indício de que ela se apresentava como representante do empresário. A defesa de Lulinha contesta a existência de irregularidades.

O que está sob investigação

O caso envolvendo Lulinha não se resume às conversas sobre cannabis medicinal. Reportagens recentes apontam a existência de inquéritos que investigam suspeitas de tráfico de influência e outros fatos relacionados à atuação de pessoas próximas ao empresário.

A Procuradoria-Geral da República pediu que uma das investigações deixasse o STF e fosse encaminhada à primeira instância, sob o argumento de que não haveria autoridade com foro por prerrogativa de função envolvida no caso. A decisão sobre o pedido cabe ao ministro André Mendonça.

Isso significa que o caso permanece em fase de investigação e que as suspeitas ainda precisam ser apuradas pelas autoridades competentes, com garantia de defesa aos envolvidos.

O peso político das mensagens

Do ponto de vista político, porém, o conteúdo das conversas já produz consequências.

A simples menção a um advogado apresentado como próximo de um ministro do STF amplia o alcance público da investigação e alimenta questionamentos sobre as relações entre empresários, lobistas, advogados e pessoas com trânsito em Brasília.

Ao mesmo tempo, a resposta de Kassio Nunes Marques estabelece uma distinção importante: a lobista pode ter afirmado que Otto Medeiros era seu “sócio”, mas o ministro nega essa condição e não há, nas informações divulgadas até agora, comprovação de uma sociedade entre os dois.

A controvérsia, portanto, está justamente no contraste entre o que aparece nas mensagens atribuídas a Roberta e as negativas apresentadas pelos envolvidos.

Um novo problema político para o entorno de Lula

Para o governo Lula, o caso cria mais um foco de desgaste em um momento de intensa movimentação eleitoral.

As investigações atingem o entorno familiar do presidente, embora Lula não seja apontado, nas informações apresentadas nas reportagens consultadas, como participante do negócio. O próprio presidente afirmou publicamente, segundo reportagens recentes, que seu filho não deve receber tratamento privilegiado e que eventuais irregularidades precisam ser investigadas.

A defesa de Lulinha nega irregularidades e criticou o que considera vazamentos seletivos com possível motivação política. A defesa de Roberta Luchsinger também questionou a divulgação de informações de um inquérito sigiloso e pediu apuração sobre a origem dos supostos vazamentos.

O caso, assim, permanece aberto em duas frentes: a jurídica, que depende do avanço das investigações e da produção de provas; e a política, que já começou e deve ganhar intensidade à medida que a campanha eleitoral de 2026 se aproxima do seu período decisivo.

A revelação de que uma lobista investigada descreveu um advogado como “sócio” de um ministro do STF certamente amplia o impacto da história. Mas, até aqui, a informação confirmada é que Kassio Nunes Marques reconhece amizade com Otto Medeiros e nega qualquer sociedade, enquanto os demais fatos relacionados ao projeto de cannabis e à atuação dos envolvidos continuam sob investigação.

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