
PF aponta possível lucro de 20% em negócio de cannabis envolvendo Lulinha e lobista
Mensagens apreendidas na investigação indicam que Roberta Luchsinger buscava remuneração sobre uma operação de fornecimento de produtos à base de canabidiol ao governo federal; diálogos também mencionam o advogado Otto Medeiros, que nega qualquer sociedade com Kassio Nunes Marques
Uma investigação da Polícia Federal colocou sob os holofotes uma articulação que envolve Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a lobista Roberta Luchsinger e uma tentativa de comercialização de produtos à base de cannabis medicinal para o governo federal.
Segundo mensagens analisadas pela PF e divulgadas por diferentes veículos, Roberta teria buscado 20% de remuneração sobre o negócio. A apuração investiga possíveis crimes de corrupção e tráfico de influência, mas não significa que os envolvidos tenham sido condenados ou que o negócio tenha efetivamente sido concretizado.
O caso ganhou dimensão política porque os diálogos também fazem referência ao advogado Otto Medeiros, apresentado por Roberta em uma das conversas como alguém influente em Brasília e supostamente ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques. O próprio ministro, entretanto, nega categoricamente qualquer sociedade com Medeiros.
A operação que não saiu do papel
De acordo com os elementos divulgados da investigação, a negociação envolvia o fornecimento de medicamentos ou outros produtos derivados de cannabis medicinal ao governo federal, especialmente em iniciativas relacionadas ao Ministério da Saúde.
As mensagens indicam que Roberta Luchsinger pretendia obter uma participação de 20% do faturamento relacionado à operação. A proposta, segundo as informações disponíveis, não prosperou.
Em maio de 2024, Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, teria enviado uma solicitação ao escritório de Otto Medeiros para obter uma proposta de serviços jurídicos relacionada ao projeto de fornecimento de cannabis medicinal à União. Uma proposta teria sido encaminhada posteriormente, mas a negociação não avançou.
Outro elemento citado na investigação é uma minuta de contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O documento teria chegado a Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. Ele confirmou ter recebido um modelo de contrato, mas afirmou que não o encaminhou adiante dentro do governo.
O nome de Lulinha aparece nas conversas
O ponto mais politicamente sensível da investigação está na relação atribuída pela PF entre Roberta e Lulinha.
Segundo mensagens analisadas pelos investigadores, a lobista afirmava atuar em nome de Fábio Luís Lula da Silva. Em determinado diálogo, ela teria utilizado a expressão “Eu sou o Fábio”, numa referência ao filho do presidente. A PF também encontrou conversas que sugerem articulação de agendas e contatos com pessoas próximas ao governo.
A defesa de Lulinha, porém, contesta as conclusões derivadas das mensagens. O advogado Marco Aurélio de Carvalho afirmou que não poderia, naquele momento, atestar a autenticidade de qualquer mensagem e acusou setores da Polícia Federal de promover vazamentos com motivação política e eleitoral. Lulinha nega irregularidades.
A conexão com Otto Medeiros e Nunes Marques
Outro capítulo da investigação envolve Otto Medeiros. Segundo os relatos publicados a partir do material da PF, Roberta teria descrito o advogado como “sócio” de Kassio Nunes Marques.
A afirmação, contudo, não foi comprovada pela investigação como uma relação societária real. Nunes Marques negou expressamente a existência de sociedade com Medeiros.
Em nota, o ministro declarou que “não é e nunca foi sócio” do advogado em qualquer empreendimento. Ele reconheceu apenas uma relação de amizade e afirmou que se declara impedido em processos no STF nos quais Medeiros atua.
O episódio, portanto, exige cautela: uma afirmação feita por uma investigada em uma conversa não pode ser automaticamente tratada como prova de que o ministro tenha participado da negociação ou recebido qualquer vantagem.
Relações profissionais ampliam o interesse da investigação
A apuração também levantou informações sobre a relação profissional entre Otto Medeiros e Lulinha. Segundo a Folha, o advogado já teria atuado em questões tributárias relacionadas ao filho do presidente e Lulinha teria utilizado uma aeronave particular de Medeiros em uma viagem entre Brasília e São Paulo.
Além disso, Karine Nunes Marques, irmã do ministro, e Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques, aparecem relacionados profissionalmente ao escritório de Otto Medeiros em determinados processos. Esses vínculos, por si só, não demonstram participação do ministro na negociação investigada.
Ministério da Saúde entrou no radar
A investigação também examina contatos de Roberta com integrantes do Ministério da Saúde. Ela teria sido recebida na pasta e apresentado demandas relacionadas ao projeto.
Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde, afirmou que uma de suas atribuições era receber pessoas e encaminhar demandas para análise técnica. Segundo as informações divulgadas, ele sustenta que a proposta apresentada por Roberta não avançou.
Esse ponto é fundamental para dimensionar o caso: até aqui, as informações divulgadas apontam para uma tentativa de articulação comercial e política, e não para a comprovação de que o governo tenha efetivamente celebrado o contrato ou pago os valores mencionados.
“Careca do INSS” também aparece
Roberta Luchsinger também é investigada por sua relação com Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, personagem que ganhou notoriedade em outra frente de investigações envolvendo suspeitas de fraudes contra aposentados e pensionistas.
Segundo a apuração, Roberta teria indicado Otto Medeiros ao grupo para tratar da parte jurídica da operação envolvendo cannabis medicinal.
A investigação, portanto, passou a conectar diferentes personagens e frentes de atuação: Lulinha, Roberta, Antunes, interlocutores do Ministério da Saúde e o escritório de Otto Medeiros.
O que está comprovado e o que permanece sob investigação
O caso exige uma separação clara entre fatos documentados, declarações dos envolvidos e hipóteses investigativas.
Está documentado, segundo as reportagens baseadas no material da PF, que existem mensagens envolvendo Roberta Luchsinger e tratativas relacionadas à venda de produtos de cannabis ao poder público. Também há referência a uma expectativa de remuneração de 20%.
Por outro lado, não está estabelecido que Lulinha tenha recebido os 20%, que o contrato tenha sido assinado ou que o governo tenha pago qualquer valor referente à negociação. A própria apuração aponta que a tentativa de negócio não avançou.
Da mesma maneira, a afirmação de Roberta sobre Otto Medeiros ser “sócio” de Nunes Marques foi negada pelo ministro, e não há, nas informações disponíveis, comprovação de que Nunes Marques tenha participado da negociação.
Investigação chega ao STF
O caso está sob investigação no Supremo Tribunal Federal, com relatoria do ministro André Mendonça. Mais recentemente, a Procuradoria-Geral da República defendeu que o inquérito seja enviado à primeira instância, sob o argumento de que não haveria autoridade com foro privilegiado entre os investigados que justificasse a permanência do caso no STF.
A controvérsia ocorre em um momento particularmente sensível para o governo Lula, às vésperas das eleições de 2026. O episódio reúne três ingredientes politicamente explosivos: um filho do presidente, uma negociação pretendida com o governo federal e uma investigação policial sobre possíveis relações de influência e interesses econômicos.
Mas o jornalismo responsável precisa manter a distinção entre suspeita e prova. A existência de mensagens e contatos justifica a investigação; não equivale, por si só, à demonstração de corrupção ou de enriquecimento ilícito.
O que a PF tenta esclarecer é justamente se essas relações ultrapassaram a esfera de contatos privados e se houve tentativa de utilizar proximidade política, influência ou acesso a autoridades para viabilizar um negócio com dinheiro público. Até que a investigação seja concluída e eventuais acusações sejam formalmente analisadas pela Justiça, os envolvidos permanecem sob o princípio da presunção de inocência.
Fonte principal: Revista Oeste — “Lulinha e lobista teriam 20% de lucro em ‘negócio’ com governo, diz PF”