
André Mendonça admite encontro com Daniel Vorcaro e diz que apenas ouviu o empresário
Ministro do STF afirma que recebeu o ex-controlador do Banco Master uma única vez, em março de 2025, antes de assumir a relatoria do caso; encontro ocorreu fora da agenda oficial e passou a ser questionado após a divulgação de mensagens e áudios apreendidos pela Polícia Federal
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou que recebeu Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master, em março de 2025, meses antes de assumir a relatoria das investigações relacionadas à instituição financeira. Mendonça afirmou que o encontro ocorreu uma única vez e que sua participação se limitou a ouvir as explicações apresentadas pelo empresário.
A confirmação veio depois que a Polícia Federal encontrou, no celular de Vorcaro, mensagens e áudios que reconstruíram contatos do empresário com autoridades, advogados e políticos. O encontro ganhou relevância porque Mendonça posteriormente passou a comandar, no STF, processos relacionados ao caso Banco Master.
Segundo o ministro, entretanto, a reunião ocorreu antes de ele assumir a relatoria do caso e teve como assunto formal uma questão judicial envolvendo precatórios. A versão de Mendonça é que Vorcaro apresentou suas preocupações sobre a Suspensão de Tutela Provisória (STP) 976, relacionada ao pagamento de precatórios ligados à Agroindustrial Tabu.
Encontro ocorreu no Instituto Iter
A reunião foi realizada no Instituto Iter, em São Paulo, entidade fundada por Mendonça. O encontro teria durado aproximadamente 20 a 30 minutos.
De acordo com as informações divulgadas, a aproximação foi intermediada pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP). Mensagens encontradas no telefone de Vorcaro indicam que os contatos foram utilizados para aproximar o empresário do ministro.
O fato de a reunião ter ocorrido fora das dependências do STF e fora da agenda oficial passou a ser um dos pontos de questionamento. A circunstância, por si só, não demonstra irregularidade, mas ganhou peso diante da posterior participação de Mendonça no caso Master e da existência de outros registros que mostram a tentativa de Vorcaro de estabelecer canais de comunicação com integrantes das instituições públicas.
Mendonça diz que apenas ouviu Vorcaro
Em sua explicação, Mendonça procurou separar o encontro das investigações posteriores contra o Banco Master.
O ministro afirmou que “se limitou a ouvi-lo” e que não assumiu compromisso com as reivindicações apresentadas pelo empresário. Segundo essa versão, Vorcaro expôs sua posição sobre o processo relacionado aos precatórios e Mendonça tomou conhecimento dos argumentos apresentados.
A defesa pública de Mendonça se apoia também no fato de que, posteriormente, sua atuação no processo não teria beneficiado os interesses do empresário. Segundo informações divulgadas sobre o caso, o ministro adotou posição contrária à pretensão defendida por Vorcaro na STP 976.
Esse ponto é importante para a avaliação dos fatos: o encontro demonstra que houve contato entre os dois, mas não comprova, isoladamente, favorecimento, interferência ou qualquer ilícito por parte do ministro.
Áudios levantaram dúvidas sobre o objetivo da reunião
Apesar da explicação apresentada por Mendonça, conteúdos recuperados pela Polícia Federal trouxeram uma versão mais ampla sobre a aproximação.
Áudios e mensagens localizados no aparelho de Vorcaro indicariam que o empresário pretendia discutir também problemas enfrentados pelo Banco Master e questões relacionadas ao Banco Central. Em uma das comunicações, Ciro Soares teria relatado a Vorcaro os efeitos da conversa com Mendonça, dando a entender que o ministro havia sido sensibilizado pela situação apresentada.
Essa diferença entre a finalidade descrita pelo ministro e o conteúdo atribuído às conversas de terceiros é um dos pontos que deverão ser esclarecidos na investigação.
Ainda assim, é necessário separar o que Vorcaro e seus interlocutores pretendiam discutir daquilo que efetivamente foi tratado durante a conversa com Mendonça. As mensagens de terceiros não demonstram automaticamente que todos os assuntos mencionados tenham sido discutidos diretamente com o ministro.
O momento em que o encontro aconteceu
A reunião ocorreu em março de 2025.
Naquele momento, Mendonça ainda não era o relator das investigações do Banco Master. Ele assumiria essa função somente em fevereiro de 2026, depois da saída do ministro Dias Toffoli da relatoria.
Desde que assumiu o caso, Mendonça passou a tomar decisões relevantes relacionadas à investigação. Entre elas estão medidas envolvendo a Polícia Federal, a prisão de Vorcaro e o avanço da apuração sobre as operações do banco.
Essa sequência temporal é central para o debate atual: o contato com Vorcaro aconteceu antes da relatoria, mas o ministro posteriormente passou a ser responsável por decisões judiciais que atingiram diretamente o empresário.
Caso Master chegou ao centro do STF
O Banco Master se tornou alvo de uma ampla investigação sobre operações financeiras e possíveis irregularidades envolvendo a instituição e outras empresas.
Daniel Vorcaro foi preso no âmbito das investigações e passou a ser uma das principais figuras do caso. A Polícia Federal apreendeu aparelhos eletrônicos e, a partir deles, recuperou mensagens, documentos, áudios e outros dados que ampliaram a investigação para além das operações financeiras.
O conteúdo extraído do telefone colocou no radar autoridades de diferentes instituições, entre elas ministros do STF, integrantes do Ministério Público, dirigentes da Polícia Federal e políticos.
Mendonça e as mensagens envolvendo Alexandre de Moraes
A revelação do encontro com Vorcaro ocorreu justamente no momento em que Mendonça havia determinado a retirada do sigilo de materiais da PF relacionados a mensagens envolvendo o ministro Alexandre de Moraes.
O relatório policial contém comunicações nas quais Vorcaro aparece tentando acionar pessoas próximas ou relacionadas a autoridades para tratar de seus problemas.
Em um dos episódios mais sensíveis, mensagens atribuídas ao empresário fazem referência a pedidos de proteção e mencionam nomes interpretados pelos investigadores como Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal. A existência dessas mensagens comprova o conteúdo dos pedidos feitos por Vorcaro, mas não demonstra, por si só, que as autoridades tenham atendido às solicitações ou interferido nas investigações.
Foi nesse contexto que Mendonça defendeu que o material fosse submetido ao plenário do STF para avaliação dos demais ministros.
A situação de Moraes
O ministro Alexandre de Moraes aparece no centro de outro conjunto de elementos encontrados pela PF.
Segundo o material divulgado, Vorcaro mantinha comunicação com um número associado ao ministro e teria procurado esse canal em momentos de preocupação com as investigações.
Também veio a público a existência de um contrato de aproximadamente R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes. Documentos analisados pela PF apontaram ainda que uma versão do contrato teria sido editada por um perfil identificado como pertencente ao ministro.
Esses fatos estão sendo utilizados para levantar questionamentos sobre a relação entre Vorcaro e o entorno de Moraes. Entretanto, a existência de contatos, contratos ou documentos não equivale automaticamente à comprovação de crime ou favorecimento ilícito.
A nova crise dentro do Supremo
A confirmação do encontro entre Mendonça e Vorcaro acrescentou uma nova dimensão à crise.
De um lado, Mendonça conduz uma investigação que contém elementos relacionados a Alexandre de Moraes. De outro, o próprio relator reconhece que teve contato anterior com o empresário investigado.
O ministro afirma que o encontro ocorreu antes de sua chegada à relatoria e que se limitou a ouvir Vorcaro. A informação sobre a reunião, entretanto, naturalmente passou a ser examinada sob o ponto de vista da aparência de imparcialidade e da conveniência institucional.
A questão não é apenas saber se houve algum favorecimento concreto, mas também se o contato anterior deve ser considerado relevante para a avaliação da atuação do ministro no caso.
O papel de Ciro Soares e Cezinha de Madureira
Dois nomes aparecem na intermediação da reunião: o advogado Ciro Rocha Soares e o deputado federal Cezinha de Madureira.
As mensagens recuperadas pela PF indicam que os dois participaram da aproximação entre Vorcaro e Mendonça. Ciro aparece em outras partes do material como uma pessoa que mantinha comunicação com Vorcaro e também transitava em contatos com autoridades.
A participação dessas pessoas é relevante porque ajuda a reconstruir como o empresário buscava acesso a integrantes dos poderes públicos.
O fato de uma reunião ter sido intermediada por terceiros, entretanto, também não permite concluir, sem outras provas, que o encontro tenha tido finalidade ilícita.
O ponto de mérito da investigação
O principal desafio agora é separar os diferentes episódios reunidos no caso Master.
Uma coisa é a existência de uma reunião entre Mendonça e Vorcaro. Outra é a finalidade efetivamente discutida naquele encontro. Outra, ainda, é verificar se houve alguma consequência concreta da reunião sobre decisões judiciais ou administrativas.
A investigação precisará estabelecer, com base em documentos, mensagens, registros e decisões, se houve alguma conexão entre o encontro e atos posteriores praticados por autoridades.
No caso de Mendonça, a cronologia apresentada pelo próprio ministro é um elemento importante: o encontro ocorreu em março de 2025, enquanto a relatoria do caso Master só veio em fevereiro de 2026.
O que está em jogo
A controvérsia ultrapassa a relação pessoal entre André Mendonça e Daniel Vorcaro.
O caso coloca em discussão os limites dos contatos entre magistrados e empresários que possuem processos em tramitação no Judiciário, sobretudo quando posteriormente o magistrado passa a atuar em investigações relacionadas a esse mesmo empresário.
Ao mesmo tempo, a análise precisa preservar uma distinção fundamental entre fato comprovado, alegação, interpretação de mensagens e suspeita investigativa.
Até o momento, a confirmação de Mendonça é de que recebeu Vorcaro uma única vez e apenas o ouviu. A Polícia Federal, por sua vez, encontrou elementos que permitem reconstruir uma tentativa de aproximação do empresário com diferentes autoridades.
O esclarecimento definitivo dependerá da análise integral das provas e da avaliação institucional do STF.
A revelação, contudo, já produz um efeito político e institucional relevante: o caso Banco Master passou a envolver não apenas as operações financeiras investigadas, mas também a forma como Daniel Vorcaro buscava acesso a autoridades e como ministros do Supremo se relacionaram com o empresário antes e durante a investigação.
É nesse ponto que a reunião entre Mendonça e Vorcaro ganha importância. O encontro, isoladamente, não prova irregularidade. Mas, diante do conjunto de mensagens, áudios e decisões que agora está sob análise, tornou-se mais um episódio que precisa ser contextualizado para que se compreenda a dimensão completa da investigação.