André Mendonça confirma encontro com Daniel Vorcaro antes de assumir caso Banco Master

André Mendonça confirma encontro com Daniel Vorcaro antes de assumir caso Banco Master

Ministro do STF admite que recebeu ex-controlador do Banco Master uma única vez, em março de 2025; mensagens e áudios apreendidos pela Polícia Federal indicam que aproximação foi articulada por advogado e deputado

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), confirmou nesta quarta-feira, 2 de setembro de 2026, que se encontrou pessoalmente com Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master. Segundo Mendonça, a reunião ocorreu uma única vez, em março de 2025, por iniciativa do empresário, e o ministro afirma que se limitou a ouvi-lo.

A confirmação do encontro veio depois da divulgação de mensagens e áudios extraídos pela Polícia Federal do celular de Vorcaro. O material indica que a aproximação entre o empresário e o ministro foi articulada durante semanas pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP).

O episódio ganhou dimensão política e institucional porque Mendonça posteriormente se tornou o relator, no STF, do caso envolvendo o Banco Master. O encontro, entretanto, aconteceu aproximadamente um ano antes de o ministro assumir essa função.

O que está confirmado

O próprio André Mendonça confirmou a existência da reunião.

Em nota divulgada pelo gabinete, o ministro afirmou que recebeu Daniel Vorcaro “uma única vez”, em março de 2025, por iniciativa do empresário, e que sua participação teria se limitado a ouvi-lo.

Mendonça também confirmou que, naquele mesmo mês, recebeu o advogado de Vorcaro e que os memoriais escritos apresentados naquela ocasião permanecem registrados em seu gabinete.

Segundo o ministro, o assunto tratado foi a Suspensão de Tutela Provisória 976 (STP 976), processo que tramitava no STF e envolvia créditos de precatórios de interesse do Banco Master.

Na data do encontro, o processo estava sob pedido de vista de outro ministro do Supremo.

Mendonça sustenta ainda que sua atuação posterior no processo não favoreceu a posição defendida por Vorcaro. Pelo contrário, afirma que adotou posição contrária aos interesses do empresário, em linha com sua posição em casos semelhantes.

Mensagens mostram articulação para a reunião

As mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro acrescentam detalhes sobre a maneira como o encontro foi organizado.

Segundo o material divulgado, o advogado Ciro Rocha Soares atuou como intermediário entre Vorcaro e Mendonça.

Em uma mensagem, Ciro informou ao empresário:

“O André quer te receber. Acho que eu dei uma balançada nele naquele assunto.”

O contexto completo da expressão “aquele assunto” aparece em outras mensagens e áudios relacionados à situação enfrentada pelo Banco Master.

Em outro trecho, Ciro afirmou que Mendonça já havia sido informado sobre a situação envolvendo o Banco Central. O advogado também mencionou que o deputado Cezinha de Madureira havia conversado anteriormente com o ministro sobre o assunto.

Esse conjunto de mensagens é importante porque mostra que a reunião não surgiu de maneira espontânea no dia do encontro. Houve uma articulação prévia para aproximar Vorcaro do ministro.

O papel de Cezinha de Madureira

O deputado federal Cezinha de Madureira também aparece na articulação.

Segundo as mensagens divulgadas, em 13 de março de 2025, Cezinha informou a Vorcaro que havia marcado uma reunião com André Mendonça para as 17h do dia seguinte, em São Paulo.

O parlamentar enviou inclusive o endereço do encontro, na Alameda Santos, 647, 16º andar.

Vorcaro respondeu positivamente à confirmação.

Cezinha também afirmou que estaria no local para receber o empresário.

A troca de mensagens estabelece uma ligação direta entre a organização do encontro e a atuação do deputado.

O encontro em São Paulo

De acordo com a investigação jornalística baseada no material apreendido, a reunião aconteceu em 14 de março de 2025, em São Paulo.

O encontro ocorreu no endereço de um instituto ligado a André Mendonça.

O Brasil 247 informou, com base nos materiais obtidos pelo jornalista Paulo Motoryn e publicados originalmente na newsletter Noites Húngaras, que a reunião teria durado cerca de duas horas.

Mendonça, por sua vez, confirmou que recebeu Vorcaro, mas apresentou uma versão mais restrita sobre o conteúdo: segundo o ministro, ele apenas ouviu o empresário e tratou da questão dos precatórios.

Essa diferença é um dos pontos que despertam interesse na investigação: as mensagens mostram a preocupação de Vorcaro em conseguir acesso ao ministro e indicam que o Banco Central fazia parte das preocupações discutidas entre seus interlocutores, mas isso não permite concluir automaticamente que todos esses assuntos tenham sido efetivamente tratados na reunião com Mendonça.

A fotografia de Ciro Soares com Mendonça

Outro elemento divulgado pela investigação é uma fotografia de Ciro Rocha Soares ao lado de André Mendonça.

Segundo reportagem de Natália Portinari, do UOL, a imagem teria sido enviada pelo advogado a Daniel Vorcaro em fevereiro de 2025 acompanhada da mensagem “Trabalhando por você”.

A fotografia passou a ser relevante para a reconstrução da relação porque antecede o encontro confirmado entre Mendonça e Vorcaro.

O advogado aparece, portanto, como uma das principais pontes entre o empresário e autoridades.

A questão do terno

O material divulgado também trouxe uma fotografia relacionada a um encontro entre Ciro Soares e André Mendonça em uma alfaiataria.

Surgiram especulações de que o advogado ligado ao Banco Master teria presenteado o ministro com um terno.

Mendonça negou ter recebido qualquer presente de Ciro Soares.

A informação permanece, portanto, no campo da controvérsia sobre o episódio, sem confirmação de que tenha ocorrido a entrega de qualquer presente.

Quando Mendonça assumiu o caso Master

A cronologia é um elemento fundamental.

O encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro ocorreu em março de 2025.

Mendonça só assumiu a relatoria do caso Banco Master no STF em fevereiro de 2026.

Portanto, quando recebeu Vorcaro, Mendonça ainda não era o responsável pela condução do caso Master que posteriormente chegou às suas mãos.

Essa circunstância é utilizada pelo ministro para afastar a ideia de que o encontro tenha ocorrido no contexto de uma atuação jurisdicional que já estivesse sob sua responsabilidade.

Ao mesmo tempo, o fato de o empresário posteriormente se tornar alvo de uma investigação relatada pelo mesmo ministro coloca o encontro sob escrutínio institucional.

O caso Banco Master e a Polícia Federal

A descoberta do encontro ocorreu no momento em que o caso Banco Master atravessa uma das fases mais delicadas.

A Polícia Federal apreendeu o celular de Daniel Vorcaro e encontrou uma grande quantidade de mensagens, áudios, documentos e registros de contatos com autoridades, políticos e advogados.

O material levou os investigadores a examinar as relações mantidas pelo empresário com diferentes integrantes das instituições públicas.

Entre os nomes que aparecem na investigação estão ministros do STF, integrantes da Procuradoria-Geral da República, dirigentes da Polícia Federal, parlamentares e advogados.

A investigação envolvendo Alexandre de Moraes

A revelação do encontro de Mendonça ocorreu imediatamente após o ministro determinar a retirada do sigilo de um relatório da Polícia Federal que contém mensagens relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes.

O material inclui comunicações atribuídas a Vorcaro e um contato identificado pelos investigadores como relacionado a Moraes.

Em algumas mensagens, o empresário aparece preocupado com a possibilidade de ser preso e buscando auxílio para lidar com investigações.

Também existe, no material, referência a nomes como Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.

A existência de uma mensagem enviada por Vorcaro demonstra o pedido feito pelo empresário, mas não comprova, isoladamente, que a autoridade mencionada tenha atendido ao pedido ou interferido na investigação.

O contrato de R$ 131 milhões

Outro elemento que ampliou a crise é o contrato de aproximadamente R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa de Alexandre de Moraes.

Documentos analisados pela Polícia Federal indicaram ainda que uma versão do contrato teria sido editada por um perfil identificado como pertencente ao ministro.

Essas informações passaram a fazer parte do conjunto de elementos que estão sendo analisados no caso.

Assim como no episódio envolvendo Mendonça, é necessário distinguir a existência de contratos, contatos e mensagens de uma eventual conclusão sobre ilícitos. A investigação precisa estabelecer se houve alguma conduta irregular e qual seria sua natureza.

Mendonça quer levar o caso ao Plenário

Após divulgar os elementos relacionados a Vorcaro e Moraes, André Mendonça defendeu que o material seja submetido ao Plenário do STF.

A ideia é que os demais ministros possam avaliar as mensagens e os documentos e decidir quais providências devem ser adotadas.

A iniciativa colocou Mendonça no centro de uma disputa institucional dentro da própria Corte.

Agora, com a confirmação de que ele também teve um encontro anterior com Vorcaro, a discussão ganhou uma nova camada.

A questão da imparcialidade

O ponto que deverá ser analisado não é simplesmente se André Mendonça conhecia Daniel Vorcaro.

O próprio ministro confirmou que conhecia e que recebeu o empresário.

A questão institucional é outra: qual foi exatamente o conteúdo da reunião, qual foi sua finalidade e se o encontro anterior deve ser considerado relevante para avaliar a atuação de Mendonça como relator do caso Master.

Por outro lado, o ministro afirma que o encontro foi anterior à relatoria, que ocorreu por iniciativa do empresário e que se limitou a ouvi-lo.

Também sustenta que sua atuação judicial posterior foi contrária aos interesses de Vorcaro.

Esses elementos precisam ser considerados em conjunto.

O que as mensagens acrescentam

As mensagens não alteram o fato central confirmado pelo próprio ministro: André Mendonça se encontrou com Daniel Vorcaro uma vez, em março de 2025.

O que elas acrescentam é a reconstrução da aproximação.

Os registros indicam que Ciro Soares e Cezinha de Madureira participaram da articulação e que havia interesse de Vorcaro em apresentar suas preocupações a Mendonça.

O material também mostra que Ciro afirmava ter conversado com o ministro sobre a situação do Banco Central.

Ainda será necessário esclarecer quanto desse conteúdo chegou efetivamente ao ministro durante a reunião e quais foram as consequências concretas do encontro.

Uma crise que envolve todo o Supremo

O caso deixou de ser apenas uma investigação sobre o Banco Master.

A partir das mensagens encontradas no celular de Daniel Vorcaro, o episódio passou a envolver André Mendonça, Alexandre de Moraes, Daniel Vorcaro, Paulo Gonet, Andrei Rodrigues, Ciro Rocha Soares, Cezinha de Madureira e outros personagens.

O STF agora enfrenta uma situação particularmente delicada: um ministro conduz uma investigação que alcança outro integrante da Corte, enquanto ele próprio reconhece ter tido um encontro anterior com o empresário investigado.

A confirmação do encontro não significa, por si só, que Mendonça tenha cometido qualquer irregularidade. Também não elimina a necessidade de esclarecer os detalhes da reunião.

O ponto central será determinar, com base nas provas, o que foi tratado, por que o encontro foi articulado, qual foi a participação de cada intermediário e se houve alguma consequência concreta para os processos ou interesses do Banco Master.

Por enquanto, existe um fato que não está mais sujeito a especulação: André Mendonça confirmou que recebeu Daniel Vorcaro uma única vez, em março de 2025.

O restante — especialmente o alcance das conversas, a atuação dos intermediários e a eventual influência sobre decisões — permanece como objeto de análise no âmbito da investigação.

A confirmação do ministro, portanto, não encerra a controvérsia. Ela estabelece oficialmente a existência do encontro e coloca sob análise pública a relação entre o magistrado e o empresário antes de Mendonça assumir a relatoria do caso que hoje está no centro de uma das maiores crises institucionais do Supremo.

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