Vorcaro depõe a juiz auxiliar de André Mendonça sem presença da Polícia Federal

Vorcaro depõe a juiz auxiliar de André Mendonça sem presença da Polícia Federal

Oitiva ocorreu após pedido de urgência da defesa, que alegou “graves intimidações”; gabinete do ministro afirma que ausência de agentes da PF seguiu regras do CNJ e nega que Alexandre de Moraes tenha sido tratado no depoimento

O ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, prestou na semana passada um depoimento reservado ao gabinete do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), responsável pela relatoria do caso que investiga suspeitas envolvendo a instituição financeira. A oitiva ocorreu sem a presença de agentes da Polícia Federal, embora tenha contado com um representante do Ministério Público Federal e tenha sido conduzida por um juiz auxiliar do gabinete de Mendonça.

O episódio ganhou relevância porque a Polícia Federal é responsável pelo inquérito do Banco Master e porque a audiência aconteceu justamente em meio à crescente tensão institucional em torno da investigação. Vorcaro está preso desde março no contexto das apurações sobre o banco.

Segundo o gabinete de André Mendonça, a audiência foi realizada depois de um pedido expresso da defesa de Vorcaro, que relatou que o empresário estaria sofrendo “graves intimidações” no local onde está preso e pediu que ele fosse ouvido com urgência.

O depoimento ocorreu sem policiais federais

A ausência de integrantes da Polícia Federal provocou questionamentos entre investigadores que acompanham o caso. A PF é a instituição responsável pela investigação e, em circunstâncias normais, participa das diligências relacionadas à coleta de informações do investigado.

O gabinete de Mendonça, porém, apresentou uma justificativa jurídica para a decisão.

De acordo com a explicação divulgada, a participação de um representante do Ministério Público Federal foi mantida porque seria exigida em audiências dessa natureza. Já a equipe policial responsável pela investigação não foi convocada porque as normas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) permitem o afastamento dos agentes investigadores em determinadas situações destinadas a preservar a integridade física e psicológica do depoente.

O gabinete citou especificamente a Resolução nº 213/2015 do CNJ, atualizada pela Resolução nº 562/2024, como fundamento para a condução da oitiva sem a presença da equipe policial.

A justificativa apresentada foi de que, diante da alegação de ameaças, a ausência da PF teria sido uma medida de proteção ao depoente e não uma tentativa de impedir o trabalho dos investigadores.

O que Vorcaro disse permanece em sigilo

O conteúdo integral do depoimento não foi divulgado.

A audiência está protegida por sigilo legal, e o gabinete de Mendonça não revelou quais foram as informações apresentadas pelo ex-controlador do Banco Master.

Um dos poucos elementos que vieram a público é que Vorcaro mencionou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, durante a oitiva. A natureza dessa referência, entretanto, não foi divulgada.

Essa informação adquiriu importância porque Andrei Rodrigues já aparece em outros elementos da investigação envolvendo mensagens encontradas no celular de Vorcaro.

Gabinete nega assunto envolvendo Alexandre de Moraes

Outro ponto considerado sensível foi a possibilidade de Vorcaro ter tratado, durante a audiência, de informações relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes.

O gabinete de André Mendonça negou essa informação.

Em nota, a equipe do ministro afirmou que o conteúdo do depoimento está protegido pelo sigilo e classificou como improcedente a informação de que assuntos relacionados a Moraes tenham sido tratados durante a oitiva.

A negativa é relevante porque Mendonça havia determinado anteriormente a retirada do sigilo de materiais da Polícia Federal contendo mensagens atribuídas a Vorcaro e relacionadas a um contato associado a Moraes.

Essas mensagens estão entre os elementos que provocaram uma crise institucional dentro do STF.

O contexto das mensagens de Vorcaro

A Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro mensagens, áudios e outros documentos que mostram contatos do empresário com diferentes autoridades, advogados e políticos.

Em uma das linhas de investigação, os investigadores analisaram mensagens nas quais Vorcaro aparece preocupado com o avanço das apurações e buscando auxílio para lidar com possíveis medidas contra ele.

Entre os nomes mencionados no material estão Alexandre de Moraes, Paulo Gonet, procurador-geral da República, e Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.

A existência dessas mensagens demonstra os pedidos e preocupações registrados pelo empresário, mas não comprova, por si só, que as autoridades mencionadas tenham atendido às solicitações ou interferido ilegalmente na investigação.

O momento aumenta a tensão

A oitiva ocorreu em um momento especialmente delicado para o caso Master.

André Mendonça havia acabado de retirar o sigilo de parte do material produzido pela Polícia Federal e defendido que o Plenário do STF avaliasse as mensagens e os demais elementos relacionados à investigação.

Ao mesmo tempo, o ministro passou a ser alvo de questionamentos depois de confirmar que havia recebido Vorcaro uma única vez, em março de 2025, antes de assumir a relatoria do caso.

Mendonça afirmou que naquela ocasião se limitou a ouvir o empresário e que a conversa estava relacionada a uma questão judicial envolvendo precatórios.

A nova oitiva, agora realizada por um juiz auxiliar de seu gabinete, acrescenta outro episódio de contato institucional entre a estrutura do ministro e o ex-controlador do Banco Master.

Suspeita de uma nova delação

A ausência da Polícia Federal também provocou especulações entre investigadores sobre a possibilidade de Vorcaro estar buscando uma nova negociação de colaboração premiada.

Até o momento, porém, não há confirmação de que exista uma nova delação em negociação.

A hipótese surgiu porque o depoimento ocorreu diretamente no âmbito do gabinete do relator, sem a participação dos policiais responsáveis pelo inquérito, e porque Vorcaro teria apresentado informações sobre pessoas que aparecem na investigação.

Um dos advogados do empresário, Daniel Bialski, não respondeu aos contatos feitos para comentar a audiência, as alegações de intimidação ou a possibilidade de uma nova colaboração.

Assim, a possibilidade de delação permanece apenas como uma hipótese levantada nos bastidores, e não como um fato confirmado.

A relação entre Mendonça e Vorcaro volta ao centro do debate

A nova audiência também precisa ser analisada em conjunto com a confirmação anterior do encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro.

Mendonça reconheceu que recebeu o empresário em março de 2025 e afirmou que o encontro ocorreu uma única vez. Naquele momento, ele ainda não era relator do caso Banco Master.

Agora, meses depois, Vorcaro voltou a ser ouvido por uma estrutura ligada ao ministro que conduz a investigação.

A diferença é que, desta vez, o encontro ocorreu no contexto formal do processo, por meio de um juiz auxiliar e com acompanhamento do Ministério Público Federal.

O fato de Vorcaro ter sido ouvido sem a presença da PF, entretanto, coloca em discussão a divisão de funções entre o Judiciário, o Ministério Público e a Polícia Federal durante uma investigação de grande repercussão.

A justificativa do gabinete

O gabinete de Mendonça insiste que não houve excepcionalidade indevida.

A versão oficial é que a audiência foi um ato processual regular, provocado por pedido da defesa, e que a ausência da Polícia Federal foi determinada para preservar a integridade do depoente diante das alegações de intimidação.

O gabinete também sustenta que a presença do Ministério Público foi preservada e que o depoimento permanece sob sigilo.

A justificativa busca afastar a interpretação de que Mendonça teria deliberadamente afastado a PF da investigação.

O papel de Andrei Rodrigues

A menção a Andrei Rodrigues durante o depoimento é um dos elementos que permanecem sem esclarecimento público.

O diretor-geral da PF já aparece no conjunto de mensagens analisadas pela investigação. Em comunicações atribuídas a Vorcaro, o empresário demonstrava preocupação com a atuação da Polícia Federal e fazia referência a Rodrigues.

Por isso, qualquer informação apresentada pelo empresário sobre o diretor-geral poderá ser relevante para a reconstrução de seus contatos e de suas tentativas de buscar auxílio diante da investigação.

Mas, enquanto o depoimento permanecer sob sigilo, não é possível afirmar qual foi exatamente o conteúdo dessa referência.

Uma investigação cada vez mais institucional

O caso Banco Master deixou de ser exclusivamente uma investigação sobre possíveis irregularidades financeiras.

A partir das mensagens encontradas no aparelho de Vorcaro, a apuração passou a envolver relações entre empresários, advogados, ministros do STF, Ministério Público, Polícia Federal e políticos.

A situação ganhou ainda mais complexidade com o conflito entre diferentes instituições sobre os limites da investigação.

De um lado, está a Polícia Federal, responsável pelo inquérito e pela produção de provas. De outro, o Ministério Público, responsável pela atuação acusatória e pelo controle jurídico da investigação. No centro, está o STF, que passou a supervisionar diretamente uma apuração com implicações para integrantes da própria Corte.

O que precisa ser esclarecido

A questão central agora não é apenas saber por que a PF não participou da audiência.

É necessário compreender qual foi a finalidade da oitiva, quais informações Vorcaro apresentou, por que a defesa pediu urgência, quais ameaças foram relatadas e quais providências poderão ser tomadas a partir do depoimento.

Também será importante verificar se as informações apresentadas pelo empresário possuem relação com elementos já encontrados pela Polícia Federal ou se constituem uma nova frente de investigação.

Por enquanto, o gabinete de André Mendonça sustenta que seguiu as normas do CNJ e que a ausência da PF foi motivada exclusivamente pela necessidade de preservar Vorcaro diante das alegações de intimidação.

O conteúdo da audiência permanece protegido por sigilo.

O episódio, contudo, acrescenta mais um capítulo à investigação do Banco Master e aumenta a pressão sobre André Mendonça, especialmente porque o ministro, além de relator do caso, já confirmou ter tido contato anterior com Vorcaro.

A diferença fundamental é que o encontro de 2025 ocorreu antes de Mendonça assumir a relatoria, enquanto a nova oitiva ocorreu dentro do contexto formal da investigação e por determinação de seu gabinete.

Essa sequência será relevante para avaliar a condução do caso e, sobretudo, para estabelecer se todas as instituições envolvidas estão tendo acesso e participação adequados na apuração dos fatos.
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