
Artistas declaram voto em Lula em ato em Copacabana; apoio de famosos reacende debate sobre política, Globo e dinheiro público
Malu Mader, Claudia Abreu, Betty Goffman e Tony Bellotto participaram de mobilização em defesa da candidatura petista; manifestação ocorreu a menos de um mês do primeiro turno, enquanto dados mostram R$ 267 milhões em publicidade federal destinados ao Grupo Globo no terceiro governo Lula
A menos de um mês do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, artistas conhecidos declararam publicamente apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante uma manifestação realizada no domingo, 13 de setembro, na orla de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Entre os nomes que participaram do ato estão as atrizes Malu Mader, Claudia Abreu e Betty Goffman, além do músico Tony Bellotto, integrante dos Titãs. A manifestação reuniu apoiadores do presidente e integrantes de movimentos ligados à defesa da democracia. O evento fez parte de uma mobilização nacional organizada pelo PT, com atos e caminhadas em diferentes cidades brasileiras.
Os participantes se concentraram nas proximidades do Copacabana Palace e seguiram pela orla. A manifestação ocorreu em um momento particularmente sensível da disputa eleitoral, com o primeiro turno marcado para 4 de outubro de 2026.
Famosos entram diretamente na disputa eleitoral
A presença de artistas de grande reconhecimento nacional dá ao ato uma dimensão que ultrapassa a tradicional militância partidária.
Malu Mader, Claudia Abreu, Betty Goffman e Tony Bellotto são figuras conhecidas do público brasileiro, especialmente por suas trajetórias na televisão, no cinema e na música.
Ao declararem voto em Lula, os artistas deixam de ocupar apenas o espaço de celebridades e passam a atuar também como personagens do debate eleitoral.
A participação de personalidades públicas em campanhas não é ilegal por si só. Artistas, jornalistas, empresários, influenciadores e cidadãos comuns possuem direito de manifestação política, respeitados os limites estabelecidos pela legislação eleitoral.
O problema, portanto, não está simplesmente em um artista apoiar Lula. A questão política levantada pelos críticos é outra: qual é o peso da influência das celebridades na formação da opinião pública e até que ponto existe uma relação entre determinados setores culturais, grandes veículos de comunicação e governos?
É nesse ponto que entra um segundo elemento que chama atenção.
O dinheiro público destinado ao Grupo Globo
Levantamento divulgado pelo Poder360 mostra que o Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões em publicidade estatal federal da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) entre 1º de janeiro de 2023 e 15 de junho de 2026, durante o terceiro mandato de Lula.
Segundo o levantamento, o valor correspondeu a 25,6% de tudo o que o Palácio do Planalto gastou com publicidade no período. O montante considera propaganda veiculada em televisão, internet, streaming, revistas e jornais ligados ao conglomerado.
O próprio levantamento ressalta que esses R$ 267 milhões não incluem recursos de publicidade provenientes de empresas estatais, sociedades de economia mista, como Petrobras e Banco do Brasil, ou de diversos ministérios. Portanto, o valor representa apenas uma parcela do dinheiro público destinado à comunicação do governo federal.
Em comparação, o Grupo Record recebeu R$ 122 milhões no mesmo levantamento, enquanto a Meta aparece com R$ 86 milhões. O Globo, portanto, ficou muito à frente dos demais grupos citados na distribuição da publicidade do Palácio do Planalto.
A Secom, por sua vez, afirma que atua de acordo com a legislação eleitoral e que os limites aplicáveis às despesas de publicidade institucional foram respeitados. A secretaria também declarou que está à disposição para prestar esclarecimentos às autoridades competentes.
E aqui começa a discussão política
É importante fazer uma distinção.
Receber publicidade oficial não significa, por si só, que uma emissora esteja fazendo propaganda política para o governo. Também não existe, nos dados apresentados, prova de que o Grupo Globo tenha recebido recursos públicos em troca de apoio eleitoral a Lula.
Mas isso não impede que o cidadão faça perguntas.
Quando um governo distribui centenas de milhões de reais em publicidade para grandes grupos de comunicação e, simultaneamente, personalidades ligadas ao universo cultural aparecem em manifestações públicas defendendo a continuidade desse mesmo governo, é natural que surjam debates sobre transparência, critérios de distribuição da publicidade estatal, independência editorial e relações entre poder político, mídia e setor cultural.
A discussão precisa ser feita com fatos, documentos e números — e não com acusações sem prova.
“Não existe petista grátis”?
É justamente aqui que aparece a ironia que tomou conta das redes sociais.
A frase “não existe petista grátis”, usada por críticos do governo, funciona como provocação política: sugere que determinados apoios à esquerda poderiam estar relacionados a interesses, recursos ou benefícios.
Mas transformar essa frase em acusação factual seria irresponsável.
No caso específico dos artistas que participaram do ato em Copacabana, não há evidência apresentada nas fontes consultadas de que Malu Mader, Claudia Abreu, Betty Goffman ou Tony Bellotto tenham recebido dinheiro do governo para declarar apoio a Lula.
Portanto, uma crítica jornalística responsável deve separar as coisas.
Uma coisa é o artista declarar voluntariamente seu voto.
Outra é o governo federal destinar publicidade institucional a empresas de comunicação.
E outra, completamente diferente, seria provar uma troca de favores — algo que não está demonstrado pelos dados disponíveis.
A ironia do momento
Ainda assim, politicamente, a cena produz uma imagem que inevitavelmente será explorada pelos adversários de Lula.
De um lado, artistas conhecidos aparecem em Copacabana declarando apoio ao presidente.
De outro, levantamentos mostram que o Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões em publicidade federal diretamente da Secom desde o início do terceiro mandato de Lula até junho de 2026.
A oposição certamente utilizará essa combinação para questionar a proximidade entre PT, governo, mídia e setor cultural.
E a provocação política poderia ser resumida assim:
No palco, artistas pedem Lula. Nos números, o governo Lula já destinou R$ 267 milhões em publicidade federal ao Grupo Globo. Coincidência? A resposta precisa estar nos documentos, não nas acusações.
Crítica: liberdade para apoiar, transparência para questionar
A liberdade de expressão precisa funcionar para os dois lados.
Se Malu Mader, Claudia Abreu, Betty Goffman e Tony Bellotto querem declarar voto em Lula, têm o direito de fazê-lo.
Da mesma maneira, quem discorda também tem o direito de questionar a presença de artistas em atos políticos, a influência de celebridades nas eleições e principalmente a utilização de recursos públicos na comunicação institucional.
O debate democrático não pode funcionar segundo a lógica de que determinado artista é livre para declarar seu voto, mas o cidadão é impedido de perguntar quanto dinheiro público circula entre governo, publicidade e grandes empresas de comunicação.
A crítica não é contra o artista votar em Lula. A crítica é contra qualquer eventual falta de transparência.
E, nesse ponto, os números merecem atenção.
O cenário eleitoral
A manifestação acontece em uma eleição extremamente disputada. Pesquisas recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro (PL) em cenários de forte equilíbrio no segundo turno, dependendo do instituto e da metodologia.
Isso explica por que atos públicos com artistas, movimentos sociais, políticos e influenciadores ganharam importância na reta final da campanha.
A eleição de 2026 não está sendo disputada apenas nas ruas e nos palanques. Está sendo disputada também nas redes sociais, na televisão, na cultura e na disputa pela narrativa pública.
Nesse ambiente, cada declaração de uma personalidade conhecida pode ganhar enorme repercussão.
Conclusão
O ato de Copacabana mostrou novamente a forte presença de artistas no campo político ligado a Lula.
Malu Mader, Claudia Abreu, Betty Goffman e Tony Bellotto participaram da manifestação e declararam apoio ao presidente, em uma mobilização organizada pelo PT e realizada a poucas semanas do primeiro turno.
Ao mesmo tempo, os dados sobre publicidade federal mostram que o Grupo Globo recebeu R$ 267 milhões da Secom entre 2023 e 15 de junho de 2026, correspondentes a 25,6% da publicidade do Palácio do Planalto no período.
Isso não prova compra de apoio, favorecimento ilegal ou qualquer irregularidade por parte dos artistas ou da emissora.
Mas, em uma democracia, perguntar não é crime.
A sociedade tem o direito de saber como o dinheiro público é distribuído, quais são os critérios utilizados e se existe transparência suficiente na relação entre governo e grandes grupos de comunicação.
Porque, no fim das contas, a pergunta que fica não é se artista pode votar em Lula.
Pode.
A pergunta é outra:
quando milhões de reais públicos circulam na publicidade oficial e, ao mesmo tempo, grandes nomes da cultura entram na campanha eleitoral, o cidadão tem todo o direito de perguntar: onde termina a política, onde começa a influência e onde estão os interesses?