Assédio moral na Comissão de Anistia deixa marcas: afastamentos e burnout

Assédio moral na Comissão de Anistia deixa marcas: afastamentos e burnout

Denúncias contra ex-coordenadora revelam ambiente tóxico e impactos graves na saúde mental de servidores e prestadores de serviço

Pelo menos seis pessoas que atuavam na Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) foram afastadas do trabalho após sofrer assédio moral, perseguição e má gestão. Entre os afastados estão servidores, prestadores de serviço e estagiários, alguns dos quais precisaram de tratamento psicológico e uso de medicamentos para lidar com os efeitos de um ambiente de trabalho hostil.

As denúncias apontam para condutas da ex-coordenadora-geral Sônia Maria Alves da Costa, que, segundo relatos, exercia controle autoritário, não tolerava críticas e retaliava quem tentava apontar problemas na gestão. O resultado foi um clima de medo e silêncio, que afetou seriamente a saúde mental da equipe.

Mesmo com registros de denúncias no Fala.BR, a instauração de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) e uma análise de clima organizacional apontando falhas graves na chefia, nenhuma medida efetiva foi tomada enquanto Sônia Maria permaneceu no cargo. A coordenadora pediu exoneração em 13 de agosto, e a portaria foi publicada no Diário Oficial da União dois dias depois.

Apesar de sua saída, servidores relatam receio de que nenhuma responsabilização real ocorra e criticam a falta de apoio das instâncias que deveriam proteger direitos trabalhistas e garantir segurança institucional. Muitos ainda têm medo de expor novos problemas ou buscar ajuda.

Um ambiente de medo e isolamento

Segundo relatos, os primeiros sinais de assédio surgiram ainda em 2023, com episódios de constrangimento, sarcasmo e intimidação. A motivação inicial estaria ligada à equipe herdada da gestão da atual senadora Damares Alves.

Em reuniões, a coordenadora chegou a transformar momentos de escuta em ocasiões de maior constrangimento e ameaça, mencionando demissões e isolando funcionários. A equipe acabou se dividindo entre os que se calavam por medo e os que resistiam, mas ficavam isolados, aumentando o clima de tensão. Alguns passaram a almoçar em espaços improvisados, longe da equipe principal, para evitar conflitos.

Impactos psicológicos graves

O desgaste emocional levou servidores e prestadores a necessitar de acompanhamento médico e psicológico, com relatos de ansiedade, estresse intenso, irritabilidade, alterações de sono e apetite, e sensação de impotência diante da pressão constante. Um dos casos documentados resultou em Síndrome de Burnout, que pode evoluir para depressão, ansiedade e problemas físicos.

“Meus direitos foram ignorados, e a integridade física e mental de terceirizados não é prioridade dentro do órgão, que, ironicamente, leva o nome de ‘Direitos Humanos’. Hoje, estou em tratamento psicológico e medicada devido aos danos emocionais causados”, relatou um servidor.

Denúncias ignoradas

Em setembro de 2024, uma carta-denúncia foi enviada ao então ministro Silvio de Almeida, relatando que a coordenadora duvidava da equipe e criava barreiras ideológicas, favorecendo apenas quem concordava com suas posições. O documento alertava para a persistência do assédio moral e a necessidade de conscientização sobre a má gestão, mas nunca recebeu resposta.

Denúncias também foram encaminhadas à ministra Macaé Evaristo, que assumiu a pasta em setembro, e à Controladoria-Geral da União (CGU), mas, segundo fontes, nenhuma ação efetiva foi tomada para proteger a equipe. O MDHC informou que aplicou advertência interna à ex-coordenadora e que ela não integra mais a pasta.

Mesmo com medidas administrativas, servidores afirmam que o clima de medo e desconfiança ainda persiste e que o caso expõe a ironia de uma comissão de Direitos Humanos marcada por autoritarismo e negligência com a saúde mental de seus próprios trabalhadores.

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