
Áudio revela advogado de Daniel Vorcaro dizendo que banqueiro tinha “apoio do presidente e do PT”; mensagens apontam articulação para tentar salvar o Banco Master
Conversas encontradas pela Polícia Federal no celular do ex-banqueiro mostram a atuação do advogado Walfrido Warde na tentativa de aproximar Daniel Vorcaro de Luiz Inácio Lula da Silva e de integrantes do governo. Mensagens citam reuniões no Palácio do Planalto, contatos com assessores presidenciais e a negociação para a venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). O conteúdo levanta questionamentos sobre a influência política buscada pelo banqueiro, mas, por si só, não comprova que Lula tenha cometido irregularidades.
Áudio cita suposto apoio político de Lula e do PT
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, revelam que o advogado Walfrido Warde afirmava que o banqueiro contava com apoio político dentro do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O assunto ganhou destaque após a divulgação, neste domingo, 18 de outubro de 2026, de um áudio enviado por Warde a Vorcaro em março de 2025.
Na gravação, encaminhada em 30 de março daquele ano, Warde avalia que a TV Globo estaria tentando enfraquecer o apoio político que Vorcaro supostamente possuía dentro do Partido dos Trabalhadores e do Palácio do Planalto.
“A Globo tá querendo, basicamente, quebrar o teu apoio interno dentro do PT. Entendeu? É isso que eles querem. Eles querem tirar o apoio do presidente. Já entenderam que o teu apoio vem do presidente. Então eles querem tirar o teu apoio”, afirma o advogado, conforme trecho divulgado pela revista Veja.
A declaração chama a atenção porque apresenta a percepção de Warde sobre a relação política de seu cliente com o presidente da República. A gravação, entretanto, registra a avaliação do advogado e não constitui, isoladamente, prova de que Lula tenha prometido apoio formal à operação financeira ou interferido ilegalmente em decisões de órgãos públicos.
Quem são os principais envolvidos
Daniel Vorcaro é o empresário que controlava o Banco Master, instituição que entrou em grave crise e acabou liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em novembro de 2025.
Walfrido Warde é o advogado que atuou para aproximar Vorcaro de autoridades e interlocutores políticos. Nas mensagens divulgadas, ele relata conversas com pessoas próximas ao presidente e trata da tentativa de conseguir reuniões no Palácio do Planalto.
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República e principal liderança nacional do PT, aparece repetidamente nas conversas reproduzidas pela reportagem. Segundo a Veja, entre abril de 2023 e julho de 2025, Warde enviou ao menos 20 mensagens a Vorcaro com referências ao presidente.
Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, chefe de gabinete de Lula à época dos diálogos citados, aparece como um dos interlocutores a quem Warde teria encaminhado recados relacionados à crise do banco.
Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda nos governos petistas, também aparece nas conversas. Ele prestou serviços de consultoria ao Banco Master e, de acordo com as reportagens, participou da articulação de um encontro entre Vorcaro e Lula no Planalto.
Edinho Silva, presidente nacional do PT, é citado indiretamente em uma conversa na qual Vorcaro sugere que uma questão sobre a operação do BRB fosse encaminhada por meio de “Edinho”, aparentemente para evitar expor diretamente o presidente.
Paulo Henrique Costa, que presidia o Banco de Brasília (BRB) durante parte das negociações, perguntou a Vorcaro se Lula apoiava ou não a operação de compra do Master.
Gabriel Galípolo, então ligado à estrutura econômica do governo e posteriormente presidente do Banco Central, aparece no contexto das preocupações sobre a autorização da operação. A aprovação do Banco Central era fundamental para que o negócio avançasse.
Mensagens mostram tentativa de marcar reuniões com Lula
De acordo com as mensagens divulgadas pela Veja e repercutidas por O Antagonista, Warde demonstrava ter acesso a assessores presidenciais e a integrantes do governo. Em abril de 2024, o advogado teria prometido a Vorcaro que conseguiria uma audiência com o presidente.
Em uma mensagem, escreveu: “Vou conseguir uma audiência tua com o PR”, usando a abreviação de presidente da República.
Em outra ocasião, afirmou: “Saí da sala do presidente”. Em seguida, relatou que Lula havia perguntado sobre um e-mail relacionado ao banqueiro.
Os diálogos também mostram o advogado informando que conversaria com o presidente e transmitindo a Vorcaro a expectativa de que uma reunião pudesse ocorrer. Em setembro de 2024, segundo a reportagem, Warde disse que havia conversado longamente com Lula no dia anterior e perguntou ao banqueiro se ele gostaria de saber mais detalhes. Vorcaro quis saber se o assunto havia sido tratado. Warde respondeu afirmativamente.
Em novembro de 2024, a articulação avançou. O advogado avisou ao banqueiro que a reunião com Lula estava marcada para uma quarta-feira, às 11 horas. O encontro entre Vorcaro e o presidente ocorreu em 4 de dezembro de 2024, no Palácio do Planalto.
Antes da reunião, Warde teria alertado Vorcaro de que Lula estava “um pouco impaciente”. Depois do encontro, o advogado disse que daria um retorno sobre a conversa.
A existência da reunião é um dos pontos centrais da controvérsia. O encontro, por si só, não demonstra ilegalidade; a questão que permanece relevante é o que foi discutido, quais demandas foram apresentadas e se houve alguma promessa ou providência irregular em favor do banco.
A tentativa de viabilizar a venda ao BRB
A crise do Banco Master levou Vorcaro a buscar alternativas para evitar o colapso da instituição. Uma das possibilidades era a venda de participação do banco ao Banco de Brasília, instituição financeira controlada pelo governo do Distrito Federal.
Em 28 de março de 2025, o BRB anunciou uma operação para comprar 58% do capital total do Master. O negócio, contudo, dependia da autorização do Banco Central e não chegou a ser concluído.
Dois dias depois do anúncio, Warde enviou o áudio em que afirmou que Vorcaro tinha apoio do presidente e do PT e que, na sua avaliação, a Globo tentava enfraquecer essa sustentação política. Para justificar sua análise, encaminhou ao banqueiro uma captura de tela de uma reportagem sobre a consultoria de Guido Mantega ao Master e sobre o encontro de Vorcaro com Lula.
O episódio reforça a necessidade de esclarecer até que ponto a negociação financeira foi acompanhada por articulações políticas e quais limites foram observados nas interlocuções com autoridades públicas.
Pergunta sobre o apoio de Lula à operação
As mensagens também registram uma conversa envolvendo Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB. Em agosto de 2025, Costa perguntou a Vorcaro se o presidente Lula apoiava ou não a operação de compra do Master.
Vorcaro sugeriu que o assunto fosse tratado por meio de “Edinho”, aparentemente uma referência a Edinho Silva, presidente nacional do PT. Na mensagem, o banqueiro escreveu: “Melhor via ele e não expor o presidente [Lula]”.
A frase é relevante por indicar que Vorcaro considerava politicamente sensível a questão do apoio presidencial. Entretanto, ela não comprova, por si só, que Edinho Silva tenha atuado para garantir a operação, nem que Lula tenha dado uma ordem para que a compra fosse aprovada.
O ponto central é a diferença entre buscar apoio político, tentar acesso a autoridades e comprovar uma interferência indevida. Para estabelecer responsabilidades, é necessário verificar o conjunto das mensagens, documentos, depoimentos e decisões tomadas pelos órgãos competentes.
Recados, pressão e o alerta de que “vamos para a guerra”
Outro trecho das conversas indica que, em julho de 2025, Vorcaro pediu a Warde que transmitisse um recado ao presidente: “Avise o presidente amanhã e vamos para a guerra”.
Em um grupo de mensagens chamado “Amigos”, Warde também escreveu “Nós vamos quebrar tudo” e pediu que o recado fosse levado ao “chefe”. As conversas citadas pela Veja indicam que Marcola teria afirmado que encaminharia a mensagem a Lula.
Em outro diálogo reproduzido pela reportagem, uma mensagem atribuída a um interlocutor próximo ao presidente dizia que Lula havia conversado por telefone com Guido Mantega e que chamaria o ex-ministro quando ele retornasse de Londres.
As mensagens mostram o tom de pressão adotado durante a tentativa de salvar o banco e revelam a importância que os envolvidos atribuíam aos contatos políticos. Ainda assim, o significado exato de cada frase e o contexto integral das conversas precisam ser avaliados com cuidado, sem transformar automaticamente declarações privadas em prova de crime.
O que aconteceu com o Banco Master
A venda do Master ao BRB não foi concluída. A operação dependia da autorização do Banco Central, que não aprovou o negócio. Em novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master.
A liquidação marcou o