
“Brasil homenageia Trump na Câmara um dia antes de ser alvo de tarifa recorde”
Deputados bolsonaristas exaltam ex-presidente dos EUA enquanto ele impõe ao país a maior taxa entre 22 nações atingidas por nova medida protecionista.
Em uma cena que parece ter saído de um roteiro irônico, a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (9) uma moção de louvor ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A homenagem veio justamente um dia antes de o governo norte-americano anunciar um aumento nas tarifas de importação que atinge em cheio produtos brasileiros — uma taxação de 50%, a maior entre os 22 países afetados.
A iniciativa da moção partiu do deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), aliado de Bolsonaro e líder do PL, que também foi o responsável por indicar Trump à Medalha do Mérito Legislativo em 2024 — a mais alta honraria concedida pela Câmara. Embora o ex-presidente americano nunca tenha vindo a Brasília para receber a medalha, a idolatria parlamentar por ele segue firme.
No texto aprovado, Sóstenes afirma que Trump deve ser lembrado como “um dos melhores presidentes do mundo”, um exemplo de liderança democrática. O documento enumera uma série de feitos atribuídos ao republicano, como a suposta redução da inflação nos EUA, corte de impostos, promoção da paz entre Rússia e Ucrânia, criação de um departamento para “desburocratizar o governo” e, não menos polêmico, o perdão aos envolvidos na invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021.
Na semana anterior, Trump e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, também foram homenageados por outro colegiado da Câmara — a Comissão de Segurança Pública — em razão do ataque ao Irã, classificado pelos deputados como uma defesa da liberdade ocidental.
Durante a sessão, o deputado Sargento Fahur (PSD-PR) afirmou que o gesto “mostra de que lado estamos”. Segundo ele, o voto de louvor tem valor simbólico e político, destacando a afinidade entre parte do Congresso brasileiro e líderes da extrema direita internacional.
A homenagem, no entanto, ficou atravessada pela realidade. Poucas horas depois da aprovação, Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, um verdadeiro baque para o agronegócio e a indústria nacional. Muitos veem na medida uma ameaça real a empregos e exportações brasileiras — enquanto parlamentares que se dizem patriotas aplaudem de pé o algoz.
Entre ironias e contradições, o Brasil homenageia o homem que, ao que tudo indica, não hesitou em colocar os interesses americanos acima da diplomacia com seu “parceiro” do sul.