
“Brasil reage ao tarifaço: Lula aciona ministros e prepara revide contra os EUA”
De olho na soberania comercial, governo finaliza decreto da Lei da Reciprocidade para responder às sanções impostas por Trump e promete endurecer o jogo com medidas tarifárias e diplomáticas.
Em um domingo de intensas conversas no Palácio da Alvorada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu sua equipe mais próxima para tratar de um tema que reacendeu tensões no cenário internacional: as tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin e de diversos ministros, Lula costurou a resposta do Brasil com base em uma nova regulamentação da Lei da Reciprocidade Econômica — uma ferramenta que permitirá ao país revidar, de forma proporcional, qualquer medida externa que atinja sua autonomia comercial.
O decreto que vai destravar essa lei já está prestes a sair do forno — e deve ser publicado até amanhã. A regulamentação dará respaldo jurídico para o Brasil adotar retaliações caso outro país imponha barreiras comerciais injustas, medidas ambientais com exigências desproporcionais ou viole acordos firmados com o Brasil. A resposta pode vir em forma de novas tarifas, ações na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou até revisão de benefícios concedidos a países parceiros. Um dado importante levantado por Alckmin durante a reunião: dos 10 principais produtos que os EUA exportam para o Brasil, oito não pagam nenhum imposto.
Além de Alckmin, estiveram presentes os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Carlos Fávaro (Agricultura), Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Sidônio Palmeira (Comunicação), além da secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha, e do líder do governo no Senado, Jaques Wagner. A ex-ministra Miriam Belchior também participou da discussão.
A urgência da medida veio na esteira da decisão de Donald Trump, que voltou à cena política nos EUA com imposições agressivas: anunciou tarifas de 10% para produtos importados de vários países e, posteriormente, uma taxa de 50% especificamente para exportações brasileiras. A justificativa? Um suposto desequilíbrio comercial, além de críticas veladas ao processo judicial de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, que ele classificou como “caça às bruxas”.
Mas especialistas ouvidos apontam que a tensão tem raízes mais profundas. Para o tributarista Ivson Coelho, o gesto de Trump parece mais político do que técnico. “O Brasil precisa se posicionar de igual para igual. A nova lei traz esse instrumento”, afirmou. Ele também destacou a possibilidade de acionar a OMC como parte dessa resposta mais firme.
Já o especialista em comércio exterior Felipe Bocayuva acredita que as recentes movimentações brasileiras — como a defesa da desdolarização no Brics — podem ter irritado Washington. Para ele, a lei de reciprocidade surge como uma forma institucional de mostrar que o Brasil não aceitará mais ser tratado com descaso em disputas comerciais. “Essa lei permite que o país reaja de forma coletiva e coordenada, com consultas internas e ações externas. É um passo importante”, disse.
Bocayuva, no entanto, faz um alerta: as retaliações devem ser construídas com responsabilidade, sob critérios claros e com foco em soluções diplomáticas, para evitar escalar o conflito sem necessidade.
O governo já sinalizou que a reação será planejada com o setor produtivo. Um grupo de trabalho será formado com representantes da indústria, do agronegócio e do comércio para definir os próximos passos. Segundo Alckmin, esse comitê será o coração da estratégia brasileira para reequilibrar o jogo.
Se depender do tom da reunião de domingo, o recado está dado: o Brasil não pretende mais assistir calado quando interesses externos atropelam sua soberania. E a nova lei, que dormia na gaveta, ganhou vida como escudo — e espada — da política comercial do país.