Caetano Veloso protesta contra anistia — depois de já ter sido anistiado e bancado pelo Estado

Caetano Veloso protesta contra anistia — depois de já ter sido anistiado e bancado pelo Estado

Artista transforma show em ato político contra o PL da Dosimetria, enquanto ignora o próprio passado e os patrocínios públicos

Neste domingo (14/12), Caetano Veloso voltou ao palco político, desta vez em plena praia de Copacabana, para cantar contra o PL da Dosimetria, projeto que pode reduzir penas de condenados pelos atos de 8 de janeiro. A música escolhida foi Gente, apresentada como símbolo de consciência social, dignidade humana e resistência cultural. Tudo muito bonito — ao menos no discurso.

O detalhe que incomoda parte do público é a ironia gritante do cenário. Caetano, que já foi beneficiado por anistia no passado, hoje ergue a voz contra qualquer possibilidade de perdão a outros. Mais curioso ainda: o mesmo artista que critica o Estado e o Congresso teve shows patrocinados por estatais como o Banco do Brasil, instituição bancária sustentada pelo dinheiro do contribuinte.

No chamado Ato Musical 2: O Retorno, realizado entre os postos 4 e 5 da orla, o cantor misturou música e política como se fossem inseparáveis. A letra de Gente ecoou palavras sobre fome, desigualdade e humanidade, enquanto o protesto reunia artistas e militantes já conhecidos desse tipo de mobilização seletiva.

O evento dá sequência a outras manifestações culturais promovidas por nomes consagrados da MPB, sempre contra projetos que não agradam ao campo ideológico do qual fazem parte. Em setembro, Caetano já havia se unido a artistas como Chico Buarque e Gilberto Gil contra a chamada PEC da Blindagem. Agora, o alvo é a dosimetria penal — desde que não seja a deles.

Nas redes sociais, o cantor afirmou que luta “pelo futuro dos jovens” e pela democracia. Mas para muitos brasileiros, o discurso soa distante da realidade. Fica difícil falar em igualdade quando o microfone é amplificado por patrocínios públicos e a indignação só aparece quando convém.

Além da oposição ao projeto, o ato abraçou uma lista extensa de pautas: feminicídio, meio ambiente, emendas parlamentares, sistema financeiro, STF, Congresso e até a Polícia Federal. Um pacote completo de causas nobres — ainda que defendidas sempre pelos mesmos personagens, do mesmo palco, para o mesmo público.

No fim das contas, a cena se repete: artistas consagrados, já perdoados pelo passado e confortavelmente financiados pelo Estado, se levantam contra anistias alheias em nome da moral e da democracia. A pergunta que fica é simples e incômoda: anistia só é legítima quando beneficia os “certos”?

Porque, no Brasil, parece que alguns cantam contra o sistema enquanto vivem muito bem dentro dele.

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