Caiado endurece defesa de anistia e diz: “Vou anistiar todo mundo e ninguém mais vai falar sobre isso”

Caiado endurece defesa de anistia e diz: “Vou anistiar todo mundo e ninguém mais vai falar sobre isso”

Presidenciável do PSD afirma que pretende perdoar condenados pelos atos de 8 de janeiro caso seja eleito e apresenta a medida como caminho para encerrar a polarização política

O candidato à Presidência da República pelo PSD, Ronaldo Caiado, voltou a colocar a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro no centro de sua campanha e adotou, nesta quarta-feira (26), um tom ainda mais contundente sobre o assunto. Em entrevista durante a série de sabatinas eleitorais, o ex-governador de Goiás afirmou que pretende anistiar os envolvidos e encerrar definitivamente a discussão.

“Vou anistiar todo mundo e ninguém mais vai falar sobre isso.”

A declaração reforça uma promessa feita por Caiado na sabatina anterior: caso seja eleito presidente, ele pretende encaminhar ao Congresso Nacional uma proposta de anistia ampla, geral e irrestrita para os envolvidos nos episódios de 8 de janeiro de 2023.

A aposta de Caiado na “pacificação”

Caiado apresenta a anistia como uma tentativa de romper o ciclo de conflito político que se aprofundou no país desde as eleições de 2022. Para o candidato, a insistência no debate sobre os acontecimentos de 8 de janeiro mantém a sociedade presa à polarização.

Na sabatina, ele classificou como “inútil” a discussão sobre se houve ou não uma tentativa de golpe relacionada aos acontecimentos de 2022 e aos ataques às sedes dos Três Poderes em Brasília.

O posicionamento amplia a dimensão política da proposta. Não se trata apenas, na formulação de Caiado, de revisar penas ou discutir individualmente a situação dos condenados, mas de promover um encerramento político do episódio.

A frase “ninguém mais vai falar sobre isso” dá à proposta um caráter particularmente definitivo: Caiado vincula a anistia à ideia de colocar um ponto final na disputa em torno do 8 de Janeiro.

Quem seria beneficiado

A promessa alcançaria, segundo o discurso do candidato, os condenados pelos atos de 8 de janeiro e também personagens ligados à investigação mais ampla sobre a tentativa de ruptura institucional.

Reportagens sobre a sabatina registraram que a proposta de Caiado inclui Jair Bolsonaro e seus aliados.

O ex-presidente é uma figura central nesse debate porque, no cenário apresentado pelas reportagens, sua situação judicial está relacionada à investigação sobre a tentativa de golpe e aos acontecimentos posteriores às eleições de 2022.

A amplitude anunciada por Caiado é justamente um dos aspectos mais controversos de sua proposta. Ao utilizar as expressões “todo mundo” e “ampla, geral e irrestrita”, o candidato evita apresentar a anistia como benefício destinado apenas a pessoas que participaram diretamente da depredação dos prédios públicos.

O papel do Congresso

Apesar do tom categórico, existe uma etapa institucional importante entre a promessa eleitoral e uma eventual anistia.

Caiado afirmou anteriormente que, eleito, encaminharia o projeto ao Congresso Nacional, onde os parlamentares teriam de deliberar sobre o texto. Ele chegou a destacar sua experiência de seis mandatos parlamentares para argumentar que conhece o funcionamento do Legislativo.

Portanto, a promessa presidencial não significaria que Caiado poderia simplesmente, por ato individual, eliminar todas as condenações. A concretização de uma anistia dependeria do processo legislativo e também estaria sujeita aos limites constitucionais e à interpretação do Poder Judiciário.

Esse aspecto torna a frase “vou anistiar todo mundo” politicamente forte, mas juridicamente mais complexa do que a formulação sugere.

A comparação com Lula

Em sua argumentação, Caiado também estabeleceu uma comparação com Luiz Inácio Lula da Silva.

O candidato mencionou as decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) que anularam as condenações de Lula na Lava Jato. A comparação é utilizada por Caiado para sustentar a tese de que o sistema político brasileiro já enfrentou situações em que decisões judiciais modificaram radicalmente o destino político de uma figura central.

A comparação, entretanto, envolve mecanismos jurídicos diferentes. As condenações de Lula foram anuladas pelo STF por questões relativas à competência da vara federal que julgou os processos e, em um caso, à imparcialidade do então juiz Sergio Moro. Isso não corresponde juridicamente a uma anistia concedida pelo Executivo.

Caiado, por sua vez, defende uma medida legislativa de anistia para os envolvidos no 8 de Janeiro.

O 8 de Janeiro no centro da eleição

Os ataques de 8 de janeiro de 2023 continuam sendo um dos episódios mais sensíveis da política brasileira. Naquele dia, manifestantes invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília.

O episódio desencadeou investigações policiais, processos judiciais e condenações pelo STF. A discussão sobre as penas e sobre uma eventual anistia passou posteriormente a ocupar espaço importante na disputa política.

É nesse ambiente que Caiado tenta construir sua candidatura como alternativa dentro do campo da direita, defendendo simultaneamente uma agenda de segurança pública, redução de gastos e pacificação política.

Uma declaração de alto impacto eleitoral

A nova declaração representa uma mudança de tom importante. Na entrevista anterior, Caiado falava em encaminhar um projeto ao Congresso e justificava a proposta pela necessidade de pacificar o país. Agora, a formulação é mais direta:

“Vou anistiar todo mundo e ninguém mais vai falar sobre isso.”

Politicamente, a frase funciona como uma promessa de ruptura com a estratégia de manter o 8 de Janeiro como tema permanente da disputa nacional.

Para seus apoiadores, a medida pode ser apresentada como uma tentativa de reconciliação e encerramento da polarização. Para seus críticos, porém, a proposta levanta uma questão oposta: se a anistia for ampla a ponto de alcançar responsáveis por crimes contra as instituições democráticas, haveria risco de transformar a responsabilização judicial em uma questão negociável de acordo com o resultado eleitoral.

Caiado tenta ocupar espaço na direita

A posição também deve ser analisada dentro da estratégia eleitoral de Caiado.

O candidato do PSD procura disputar espaço com nomes da direita e do centro-direita, incluindo Flávio Bolsonaro, enquanto tenta se apresentar como uma alternativa capaz de dialogar com setores conservadores sem necessariamente reproduzir toda a identidade política do bolsonarismo.

Ao assumir uma posição inequívoca sobre a anistia, Caiado reduz a margem para ambiguidades diante do eleitorado que considera as condenações do 8 de Janeiro excessivas ou injustas.

Ao mesmo tempo, assume o risco de afastar eleitores que consideram indispensável a responsabilização dos envolvidos nos ataques às instituições.

O que a promessa revela

A declaração de Caiado transforma a anistia em uma das marcas mais claras de sua candidatura.

O candidato não fala apenas em reduzir penas ou avaliar casos individualmente. Sua proposta é apresentada como uma solução abrangente para encerrar o conflito político.

O problema é que o desejo de “ninguém mais falar sobre isso” não depende apenas da vontade de um eventual presidente. O assunto envolve decisões judiciais, legislação, Congresso Nacional, direitos individuais, responsabilização criminal e a própria interpretação constitucional sobre os limites de uma anistia.

Assim, a promessa de Caiado pode até ser resumida em uma frase — “vou anistiar todo mundo” —, mas sua execução abriria uma das discussões jurídicas e políticas mais complexas de uma eventual Presidência.

No fundo, o candidato aposta que o eleitor brasileiro está cansado da disputa permanente em torno de Lula, Bolsonaro, STF e 8 de Janeiro e que uma anistia poderia funcionar como marco simbólico para encerrar esse capítulo.

A eleição, porém, poderá transformar justamente essa promessa de encerramento em um dos assuntos mais disputados da campanha.

Crédito: texto reescrito e contextualizado a partir da reportagem de O Globo e de informações publicadas sobre a sabatina de Ronaldo Caiado em 25 e 26 de agosto de 2026. As declarações atribuídas ao candidato foram preservadas apenas em trechos curtos, com contextualização jornalística.

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