
Advogado de Deolane é investigado após fala interpretada como ameaça a juiz em processo ligado ao PCC
Marcos Roberto Cebola e Silva pediu a revogação de prisões preventivas e afirmou temer que o magistrado Deyvison Heberth dos Reis não chegasse ao “Elísio”; defensor nega intenção de intimidar e diz que expressão tinha sentido espiritual
O advogado Marcos Roberto Cebola e Silva, conhecido por atuar na defesa da influenciadora Deolane Bezerra, é alvo de investigação após uma declaração feita durante uma audiência judicial envolvendo pessoas acusadas de integrar o Primeiro Comando da Capital (PCC). A fala foi interpretada pelo juiz Deyvison Heberth dos Reis, da 3ª Vara de Presidente Venceslau, como uma possível ameaça de morte. O caso passou a ser investigado em inquérito sob sigilo.
O episódio ocorreu durante uma audiência na qual Cebola defendia Ketheleen Camila Sousa Lemos e sustentava a necessidade de revogação das prisões preventivas dos acusados. Segundo relatos apresentados à Polícia Civil, o advogado argumentou pela libertação dos réus e, diante da informação de que o juiz analisaria a questão de acordo com a legislação, fez uma declaração que provocou reação imediata do magistrado.
A fala que desencadeou a investigação
Ao defender a revogação das prisões, Cebola afirmou que temia que o juiz não “adentrasse ao Elísio” caso mantivesse as medidas cautelares.
A expressão, associada ao conceito de paraíso, foi posteriormente questionada pelo próprio magistrado. Deyvison perguntou se aquilo constituía uma ameaça. Cebola negou e explicou que sua referência tinha caráter espiritual, argumentando que todos os seres humanos morrerão algum dia e que a expressão dizia respeito ao destino após a morte.
Para o juiz, entretanto, o contexto tornou a declaração particularmente grave. Deyvison relatou aos investigadores que, em quase duas décadas de carreira e após atuar em diversos processos relacionados ao PCC, nunca havia ouvido uma manifestação semelhante durante uma audiência. Na avaliação do magistrado, a frase poderia ser compreendida como uma tentativa de intimidá-lo para que alterasse uma decisão judicial.
Menção a delegado morto aumentou a tensão
O episódio ganhou uma dimensão ainda mais delicada porque, segundo o relato apresentado pelo juiz, Cebola teria feito anteriormente referência ao ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes.
Fontes havia sido assassinado a tiros cerca de um mês antes e era conhecido por sua atuação de enfrentamento ao crime organizado e ao PCC. Para Deyvison, a menção ao delegado não tinha relação direta com o processo em julgamento e, inserida naquele contexto, poderia ter sido utilizada para reforçar uma mensagem de intimidação.
A sequência — referência ao delegado morto e, posteriormente, a menção ao “Elísio” — passou a ser analisada pelas autoridades como possível tentativa de pressionar o magistrado durante a discussão sobre as prisões preventivas.
Investigação corre sob sigilo
O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) requisitou a abertura de investigação para apurar, em tese, possível coação no curso do processo. A Polícia Civil de São Paulo passou a colher informações e ouviu o magistrado sobre o episódio. O procedimento tramita sob sigilo judicial.
É importante destacar que Cebola é investigado, não condenado pela suposta ameaça. A interpretação sobre a intenção da declaração deverá ser examinada pelas autoridades responsáveis pela investigação e, eventualmente, pelo Judiciário.
Relação com o caso Deolane
Marcos Cebola ganhou notoriedade nacional principalmente por sua atuação em defesa de Deolane Bezerra. O advogado publicou uma série de vídeos nas redes sociais questionando procedimentos e elementos das investigações que levaram à prisão da influenciadora.
Ele também levou questionamentos sobre o caso a instituições como o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), o Ministério Público, a Justiça e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Deolane é investigada em um caso relacionado a suspeitas de lavagem de dinheiro e organização criminosa. As acusações e suspeitas envolvendo ela, contudo, não devem ser confundidas com a investigação atualmente instaurada contra o advogado.
Suspeitas envolvendo o PCC
Outro ponto que aparece nas reportagens é a existência de suspeitas das autoridades sobre uma possível ligação de Cebola com o PCC. Segundo informações divulgadas pelo SBT, o advogado participou da criação da ONG Pacto Social e Carcerário, organização que, de acordo com investigadores e promotores, seria utilizada como fachada e teria recebido recursos relacionados ao crime organizado.
Essas são alegações investigativas, e não uma condenação definitiva contra o advogado. A eventual existência de vínculo criminoso depende de apuração e comprovação pelas autoridades competentes.
Cebola também tem utilizado as redes sociais para fazer críticas ao promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do Gaeco de São Paulo e conhecido por sua atuação no combate ao PCC. Em uma publicação, o advogado chegou a chamá-lo de “super-herói de Presidente Venceslau”.
Um caso que coloca advocacia, Judiciário e crime organizado em lados opostos
O episódio chama atenção justamente pela fronteira delicada entre exercício da defesa criminal e eventual intimidação de autoridade judicial. O advogado tem o direito de contestar prisões, questionar investigações e pedir a liberdade de seus clientes. O que está sob investigação é se determinada manifestação ultrapassou os limites da atuação profissional e assumiu caráter intimidatório.
O caso também ocorre em um cenário particularmente sensível: uma audiência envolvendo suspeitos de integrar uma das maiores organizações criminosas do país, um magistrado responsável por decisões envolvendo esses investigados e a referência a um policial morto anteriormente.
Cebola sustenta que não ameaçou o juiz e que sua fala tinha interpretação espiritual. A investigação deverá justamente esclarecer se houve uma ameaça deliberada ou se a declaração pode ser compreendida dentro da explicação apresentada pelo advogado.
Crédito: informações baseadas nas reportagens do Metrópoles e do SBT News, com apuração complementar de fontes que repercutiram o caso.