
Cargo público não é camarote político
Presidente de escola que exaltará Lula na Sapucaí é demitido da Alerj após associação explícita entre função pública e militância
A demissão de Wallace Palhares, presidente da escola de samba Acadêmicos de Niterói, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) escancara um ponto sensível — e necessário — da vida pública brasileira: cargo público não pode servir de extensão para projetos políticos pessoais ou partidários.
Palhares, que ocupava o cargo de assistente na Alerj desde o ano passado, foi exonerado na quarta-feira por decisão do deputado Guilherme Delaroli (PL), presidente em exercício da Casa. A medida foi oficializada no Diário Oficial Legislativo e ocorre justamente às vésperas do desfile da escola, que estreia no Grupo Especial com um enredo inteiramente dedicado à trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva.
Quando o limite é ultrapassado
O enredo — “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” — percorre a biografia política do presidente, da infância em Pernambuco aos mandatos no Planalto. Embora o Carnaval seja espaço de expressão cultural, a situação ganhou outro peso quando se percebeu que o responsável pela homenagem ocupava cargo remunerado com dinheiro público, em uma Casa Legislativa.
A demissão, nesse contexto, surge como um gesto de coerência administrativa. Não se trata de censura ao Carnaval ou à arte, mas de preservar a separação mínima entre função pública e ativismo político explícito — ainda mais quando envolve figuras centrais do poder.
Dinheiro público e narrativa política
Dados da própria Alerj mostram que Palhares recebeu quase R$ 8 mil em janeiro, somando salário líquido e benefícios — valor bem superior ao que recebia meses antes. Ao mesmo tempo, a escola de samba foi beneficiada por repasses públicos dentro de um termo de cooperação que destinou R$ 1 milhão a cada agremiação do Grupo Especial, dinheiro federal intermediado pela Liesa.
Esse cenário levantou questionamentos legítimos. Parlamentares como Kim Kataguiri e a senadora Damares Alves acionaram a Justiça e o Ministério Público, apontando possível uso de verba pública para promoção política antecipada, já que Lula é pré-candidato à reeleição.
Decisão que sinaliza responsabilidade
Ao promover a exoneração, a Alerj envia um recado claro: o exercício de funções públicas exige cuidado, neutralidade institucional e responsabilidade. Quem escolhe atuar diretamente na exaltação política de um governante precisa, no mínimo, aceitar que isso pode ser incompatível com a manutenção de um cargo estatal.
A reação de setores da direita ao desfile — especialmente após a exibição de imagens irônicas contra Jair Bolsonaro e trechos do samba com mensagens políticas — só reforçou a percepção de que a escola ultrapassou o campo cultural e entrou de vez na arena partidária.
Separar arte, política e Estado
A Acadêmicos de Niterói pode desfilar, cantar e homenagear quem quiser. Isso faz parte do Carnaval. O que não pode é confundir o palco da Sapucaí com o balcão do serviço público. Nesse sentido, a demissão de Wallace Palhares não é perseguição — é consequência.
Em tempos de polarização extrema, decisões como essa ajudam a lembrar algo básico, mas frequentemente esquecido: o Estado não pode ser instrumento de propaganda política, seja em palanque, gabinete ou avenida.