
Caso Master: cunhado de Vorcaro afirma que banqueiro mantinha R$ 20 bilhões no exterior e cita proximidade com Moraes
Áudios atribuídos a Fabiano Zettel também mencionam Alexandre de Moraes como “melhor amigo” de Daniel Vorcaro; valor bilionário ainda não foi comprovado pelas autoridades
Novas gravações relacionadas ao Caso Master colocam novamente Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, no centro de questionamentos sobre patrimônio no exterior e relações com autoridades. Em áudios divulgados pela revista Piauí, Fabiano Zettel, cunhado e apontado como operador financeiro de Vorcaro, afirmou que o banqueiro teria mantido R$ 20 bilhões fora do Brasil e que não conseguia acessar os recursos após a crise do banco.
A declaração teria sido feita em dezembro de 2025, depois da liquidação do Banco Master pelo Banco Central e após a primeira prisão de Vorcaro. Zettel teria dito que o empresário estava sem dinheiro disponível no Brasil porque suas contas e bens haviam sido bloqueados.
“Ele guardou R$ 20 bilhões no exterior e não consegue ir lá, não consegue gastar, não consegue pegar”, afirmou Zettel na gravação, segundo o Poder360.
R$ 20 bilhões: acusação ou patrimônio comprovado?
É fundamental fazer uma distinção: os R$ 20 bilhões são uma afirmação feita por Zettel em uma conversa privada e não foram, até o momento, comprovados publicamente pelas autoridades como patrimônio efetivamente localizado no exterior.
Em depoimento à Polícia Federal, Vorcaro teria admitido possuir uma holding nas Ilhas Cayman e algumas contas correntes fora do país, mas afirmou não se recordar de todas elas. Em julho de 2026, o ministro André Mendonça autorizou mecanismos de cooperação internacional para que a Polícia Federal buscasse bens, movimentações financeiras e outras provas relacionadas ao empresário em outros países.
Segundo a reportagem da Piauí, autoridades já haviam localizado cerca de R$ 2 bilhões em imóveis e outros bens ligados a Vorcaro. A diferença entre esse patrimônio localizado e os R$ 20 bilhões mencionados por Zettel reforça a necessidade de uma investigação financeira internacional capaz de determinar se o montante citado existia, onde estaria e a quem pertenceria.
Zettel também fala sobre Alexandre de Moraes
As gravações trazem ainda uma declaração de Zettel sobre a relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
Segundo o cunhado do banqueiro, Moraes seria o “melhor amigo” de Vorcaro.
“O Xandão é melhor amigo do Daniel. Tô contando com ele. Melhor amigo, faz jantar junto, sai junto.”
A declaração foi divulgada pela Piauí e reproduzida pelo Poder360. Zettel, entretanto, não explicou na gravação o que queria dizer quando afirmou que estava “contando” com o ministro. A fala, portanto, representa a descrição feita pelo próprio Zettel sobre a relação entre os dois, e não uma comprovação independente de que Moraes tenha atuado para favorecer Vorcaro.
A revelação ganha repercussão porque já havia informações públicas sobre contatos entre Vorcaro e Moraes, além da existência de contratos entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, pertencente à família da esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes.
Reportagem recente também informou que Vorcaro trocou dezenas de mensagens diretamente com Moraes nas semanas anteriores à sua prisão. O conteúdo dessas comunicações está entre os elementos examinados no contexto das investigações.
O dinheiro escondido e o medo de bloqueios
As gravações mostram que a preocupação com bloqueios de patrimônio não teria começado depois da prisão.
Em outro diálogo, Zettel teria contado que havia viajado ao exterior para deixar dinheiro protegido diante da possibilidade de suas próprias contas serem bloqueadas.
Segundo o relato divulgado pelo Brasil 247, ele teria afirmado que fez isso depois que o Banco Central deu prazo para a reestruturação do Master e diante da possibilidade de liquidação da instituição.
O contexto é relevante porque demonstra que pessoas próximas a Vorcaro estavam acompanhando a deterioração da situação do banco e avaliando riscos patrimoniais antes da liquidação.
Na sequência, após a prisão do banqueiro, Zettel relatou preocupação com apreensões, bloqueios e novas ordens judiciais. Também afirmou que mantinha um telefone escondido em um compartimento do carro.
Prisão e liquidação do Banco Master
Vorcaro foi preso pela Polícia Federal em novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai. Naquele período, o Banco Master enfrentava uma grave crise e acabou tendo suas atividades encerradas por decisão do Banco Central.
Posteriormente, Vorcaro voltou a ser preso, em março de 2026, na mesma operação que também atingiu Zettel. O cunhado passou a ser tratado pelas investigações como uma pessoa próxima e relevante na estrutura financeira de Vorcaro.
As gravações reveladas agora ajudam a mostrar, segundo as reportagens, como pessoas próximas ao ex-banqueiro reagiram à crise, aos bloqueios patrimoniais e às prisões.
Relações, contratos e necessidade de esclarecimentos
O conjunto de informações que vem sendo revelado no Caso Master exige cuidado para não transformar declarações privadas em fatos definitivamente comprovados.
Ao mesmo tempo, os relatos levantam questões legítimas sobre a extensão do patrimônio de Vorcaro, eventuais ativos mantidos fora do Brasil e as relações estabelecidas pelo empresário com autoridades, empresários, advogados e operadores financeiros.
No caso específico de Alexandre de Moraes, a afirmação de Zettel sobre uma suposta amizade próxima não prova, por si só, qualquer irregularidade ou favorecimento. Da mesma maneira, contratos firmados pelo escritório de Viviane Barci de Moraes com empresas ligadas ao Master não constituem, isoladamente, prova de crime.
Mas justamente por envolverem um banqueiro investigado, contratos milionários, patrimônio internacional e uma autoridade do mais alto nível do Judiciário, os fatos merecem esclarecimentos públicos e apuração independente.
Repúdio à falta de transparência
O que causa indignação é a dimensão das informações que continuam surgindo sem que todas as perguntas tenham respostas claras.
Se os R$ 20 bilhões realmente existirem, é necessário saber onde estão, em quais estruturas foram mantidos, qual é a origem dos recursos e por que não foram identificados integralmente nas apurações patrimoniais.
Se o valor não existir ou tiver sido exagerado por Zettel, também é necessário deixar isso claro.
Da mesma forma, a afirmação de que Vorcaro seria “melhor amigo” de Alexandre de Moraes precisa ser contextualizada e confrontada com documentos, registros e versões dos próprios envolvidos.
A sociedade não deve aceitar nem condenações antecipadas nem explicações vagas. Documentos, perícias financeiras, cooperação internacional, contraditório e investigação independente são os instrumentos capazes de separar fato, suspeita e narrativa.
O Caso Master, cada vez mais, deixa de ser apenas uma discussão sobre a quebra de uma instituição financeira. As novas gravações colocam sob escrutínio o patrimônio internacional de Daniel Vorcaro, a atuação de seu círculo mais próximo e as relações mantidas com pessoas de grande influência.
E quanto maior for a relevância dos envolvidos, maior deve ser a transparência.
Nenhuma amizade, contrato, encontro ou relação comercial é prova automática de crime. Mas nenhuma relação relevante deve ser blindada contra questionamentos legítimos quando surgem documentos, mensagens e gravações que levantam dúvidas sobre fatos de interesse público.