Consignado sem lastro e coincidência demais: filho de Lewandowski atuou no STJ em caso ligado ao Banco Master

Consignado sem lastro e coincidência demais: filho de Lewandowski atuou no STJ em caso ligado ao Banco Master

Financeira investigada por fraudes em MT tentou destravar empréstimos na Justiça enquanto o ex-ministro ainda estava no governo

Subtítulo extra: Uma cadeia bilionária de “vendas” de carteiras, suspeitas de contratos inexistentes e um rastro de inconsistências que acabou respingando no BRB

O advogado Enrique de Abreu Lewandowski, filho do então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, atuou no Superior Tribunal de Justiça (STJ) em dezembro de 2025 para tentar beneficiar a Capital Consig Sociedade de Crédito Direto S.A., uma empresa investigada por suspeitas de fraudes em empréstimos consignados envolvendo servidores públicos do Estado de Mato Grosso.

A Capital Consig aparece ainda como uma das peças iniciais de uma cadeia de crédito que, segundo apurações, teria terminado com esses contratos sendo incorporados em carteiras do Banco Master — e depois revendidos, em valores ainda maiores, ao Banco de Brasília (BRB).

Naquele momento, Ricardo Lewandowski ainda era ministro da Justiça e Segurança Pública no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele só deixaria o cargo em 8 de janeiro de 2026. A coincidência, por si só, não configura crime, mas ganha peso no contexto das investigações, principalmente porque, ainda segundo informações citadas na apuração, o Banco Master — sob comando de Daniel Vorcaro — teria pago cerca de R$ 5 milhões ao escritório ligado à família do ex-ministro no mesmo período.

Lewandowski diz que não sabia do recurso

Procurado, Ricardo Lewandowski afirmou à Gazeta do Povo que não tinha “qualquer conhecimento sobre eventual recurso no STJ”. Ele também declarou que se afastou da advocacia e suspendeu seu registro na OAB, como manda a legislação.

A reportagem também tentou contato com a assessoria de Enrique Lewandowski, mas não obteve resposta até a publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

Enquanto isso, na quarta-feira (28), a ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), das Relações Institucionais, afirmou que Lula já sabia que Lewandowski mantinha contratos com empresas privadas antes de sua indicação ao ministério, em janeiro de 2024.

O que Enrique Lewandowski foi fazer no STJ

A atuação do advogado foi identificada a partir de consulta ao sistema público de processos do STJ. Lá consta um pedido de tutela cautelar antecedente, apresentado pela Capital Consig contra o Estado de Mato Grosso.

Na prática, a empresa tentava derrubar a decisão do governo estadual que suspendeu seu cadastro, impedindo a concessão de novos empréstimos consignados a servidores.

Esse tipo de ação é um recurso de urgência: serve para tentar evitar danos imediatos antes mesmo do julgamento principal. No pedido ao STJ, a Consig queria suspender os efeitos da decisão administrativa que bloqueou:

  • a contratação de novos consignados, e
  • os descontos em folha de contratos que já existiam.

Mas o STJ barrou o pedido

O plano da empresa não avançou. O relator do caso, ministro Francisco Falcão, da Segunda Turma, negou a liminar sem entrar no mérito, entendendo que o STJ ainda não tinha competência para analisar o caso naquele estágio.

Por que Mato Grosso suspendeu os consignados

O governo do Mato Grosso suspendeu os consignados depois que começaram a aparecer denúncias de irregularidades.

Um dos sinais mais graves apontados era a suspeita de que a Consig teria depositado valores menores do que os registrados nas Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) — os documentos que formalizam os empréstimos.

Um relatório do Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT), divulgado em agosto de 2025, reforçou a suspeita: o órgão apontou inconsistências em grande parte dos contratos analisados.

Segundo o levantamento, apenas 27.331 de 90.149 contratos enviados por instituições financeiras à plataforma Fiscaliza Consignados estavam sem irregularidades.

Da Consig ao Master: a “esteira” do crédito suspeito

Conforme relato do Banco Central enviado ao Ministério Público Federal em julho de 2025, os créditos suspeitos teriam circulado por uma sequência de empresas até chegar a instituições maiores.

O caminho descrito foi:

  1. Capital Consig originava empréstimos consignados para servidores do MT
  2. Parte das carteiras era repassada à Cartos Sociedade de Crédito Direto
  3. A Cartos teria cedido os contratos à Tirreno Consultoria
  4. A Tirreno, entre janeiro e junho de 2025, teria “vendido” ao Banco Master cerca de R$ 6,7 bilhões em operações
  5. Em seguida, de janeiro a maio de 2025, o Master teria revendido as carteiras ao BRB por R$ 12,2 bilhões, incluindo um “prêmio” estimado em R$ 5,5 bilhões

Ou seja: em poucos meses, um pacote de crédito que já estava sob suspeita virou um produto bilionário, passando de mão em mão como se fosse ouro — mesmo com sinais de inconsistência.

Acesso operacional e correspondentes bancários

Um acordo operacional assinado em 3 de janeiro de 2025 entre Cartos e Tirreno teria dado à Tirreno acesso à estrutura da Cartos, incluindo:

  • promotores de crédito
  • códigos de consignação
  • equipes operacionais
  • poderes para averbar empréstimos em folha

Segundo informações prestadas pelo BRB ao Banco Central, todas as operações adquiridas do Master com intermediação da Tirreno foram formalizadas por 20 correspondentes bancários vinculados à Cartos.

Irregularidades apontadas no “berço” do esquema

Paralelamente, apurações do governo do Mato Grosso e do TCE-MT indicaram problemas graves nos contratos da Consig, como:

  • indícios de falsificação
  • depósitos menores do que os descritos nas CCBs
  • cessão de operações para empresas sem autorização adequada para operar consignados naquele contexto

E antes mesmo da deflagração da Operação Compliance Zero, o Banco Central já havia alertado o MPF sobre sinais de insubsistência, ou seja: não havia comprovação sólida de que os contratos existiam de fato ou de que o dinheiro tinha sido realmente entregue aos supostos tomadores.

Testes do BC: nenhum dinheiro apareceu

O Banco Central realizou testes técnicos e analisou 30 clientes escolhidos aleatoriamente nas carteiras. Depois, cruzou as operações com registros financeiros (TED, Pix e outros) desde 2020.

Resultado: nenhum fluxo compatível com os empréstimos foi identificado.

Em outra amostra, com 100 CCBs fornecidas pelo BRB, o BC encontrou:

  • campos de conta bancária sem preenchimento
  • depósitos feitos até 180 dias após a emissão do contrato
  • valores creditados muito superiores ao registrado nas cédulas

BC diz que carteiras de 2024 não mostravam irregularidades

No mesmo ofício, o Banco Central afirmou que, no caso das carteiras de consignado compradas diretamente do Banco Master pelo BRB ao longo de 2024, não foram encontrados indícios de irregularidade nas análises feitas na época.

Segundo o órgão, as suspeitas mais pesadas apareceram depois, em 2025, com a entrada de intermediários como Tirreno e Cartos, que passaram a ser alvo de apuração aprofundada.

As investigações seguem em andamento.

BRB comprou carteira “podre”, exigiu garantias e agora tenta vender os ativos

O problema não parou no Master. Parte das carteiras problemáticas foi parar no BRB, dentro da estratégia do Banco Master para lidar com sua crise de liquidez.

Segundo relatório do Banco Central, o BRB intensificou a compra de carteiras do Master a partir de novembro de 2024, inclusive créditos que nem tinham sido concedidos originalmente pelo próprio banco vendedor.

Entre janeiro e maio de 2025, o BRB comprou R$ 12,2 bilhões em créditos ligados a operações intermediadas pela Tirreno, com pagamento de “prêmio” estimado em R$ 5,5 bilhões.

Quando o Banco Central aprofundou a supervisão, encontrou os mesmos problemas:

  • falta de documentação confiável
  • falhas na rastreabilidade do dinheiro
  • incompatibilidade entre CCBs e depósitos reais
  • ausência de vínculo entre contratos e fluxo financeiro

Diante disso, o BRB afirmou que, em 2025, passou a:

  • exigir documentos adicionais
  • contratar auditoria independente
  • firmar garantias suplementares de R$ 16,1 bilhões

Mesmo assim, a documentação não teria sido suficiente para validar a carteira.

O que o BRB disse

O BRB declarou que está vendendo ativos originários do Master e que os recursos podem reduzir impactos em provisões. Também afirmou manter compromisso com transparência e integridade.

Cartos nega tudo

A Cartos divulgou nota dizendo que:

  • não tem envolvimento com a Operação Compliance Zero
  • não é alvo das investigações
  • não originou, estruturou, intermediou ou cedeu créditos relacionados ao caso
  • não teve relação contratual com a Tirreno
  • jamais fez operações com o Banco Master

Mas documentos analisados pelo Banco Central, segundo a apuração, indicariam que contratos usados para comprovar liberações traziam a Cartos como originadora e que os correspondentes envolvidos estariam vinculados à empresa.

No fim das contas, o enredo é sempre o mesmo

Uma empresa investigada por suspeita de fraude tenta destravar consignados no STJ. No meio, aparece uma cadeia bilionária de cessões e revendas, contratos com sinais de inexistência, depósitos que não batem e um rastro que chega ao Banco Master — e depois ao BRB.

E quando o dinheiro some do mapa, o que sobra é o velho Brasil: um sistema onde a conta sempre cai no colo do cidadão comum, enquanto os grandes seguem empurrando papéis, recursos e desculpas como se fosse tudo “procedimento normal”.

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