
CPMI do INSS ouve presidente da confederação que faturou R$ 221 milhões em meio à “farra dos descontos”
Abraão Lincoln, chefe da CBPA, é investigado por supostos desvios e poderá permanecer em silêncio durante o depoimento. Entidade é suspeita até de cobrar contribuições de aposentados mortos.
A CPMI do INSS ouviu, nesta segunda-feira (3/11), o presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), Abraão Lincoln Ferreira da Cruz — um nome que hoje causa mais marolas em Brasília do que no mar. Ele é apontado como figura central no esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões, que já virou um dos maiores escândalos da história recente da Previdência.
De acordo com a Controladoria-Geral da União (CGU), a CBPA não tem nenhum funcionário registrado, mas conseguiu um feito digno de conto de pescador: 445 mil filiados e R$ 41,2 milhões de faturamento só em 2024 — totalizando R$ 221 milhões nos últimos anos. A conta não fecha, mas o rombo nos contracheques de aposentados, esse sim, aparece claramente.
A entidade também é acusada de uma façanha sombria: pedir descontos em benefícios de cerca de 40 mil pessoas já falecidas. O acordo firmado com o INSS em 2022 obrigava a confederação a comunicar óbitos e devolver valores indevidos. Em vez disso, o que se viu foi uma verdadeira farra com o dinheiro dos mortos — um episódio que beira o absurdo.
Antes mesmo de a sessão começar, o ministro do STF Alexandre de Moraes concedeu a Abraão Lincoln um habeas corpus permitindo que ele ficasse em silêncio para não se incriminar. E silêncio foi exatamente o que predominou no depoimento: o sindicalista evitou respostas e manteve o tom frio de quem sabe que qualquer palavra pode virar prova.
O escândalo da chamada “Farra do INSS” começou a ser revelado em dezembro de 2023, quando reportagens mostraram que entidades vinham arrecadando R$ 2 bilhões em um único ano, às custas de aposentados e pensionistas que sequer sabiam que faziam parte dessas associações. A pressão levou à abertura de inquéritos pela Polícia Federal e pela CGU, e culminou na Operação Sem Desconto, deflagrada em abril, que acabou derrubando o presidente do INSS e o então ministro da Previdência, Carlos Lupi.
Com trajetória política no Republicanos do Rio Grande do Norte — partido que já comandou e pelo qual tentou se eleger deputado federal em 2018 —, Abraão Lincoln não é novato nas águas turvas de Brasília. Em 2024, o então diretor de benefícios do INSS, André Fidélis, chegou a receber diária para participar de uma festa da CBPA — detalhe: ele também acabou investigado e exonerado.
Agora, enquanto a CPMI tenta desembaraçar o emaranhado de fraudes que sangraram a Previdência, o presidente da CBPA tenta escapar das redes da justiça. Mas, diante dos números e das suspeitas, o silêncio dele parece mais barulhento do que qualquer confissão.