“Pode sair preso ainda hoje”, ameaça presidente da CPMI do INSS a dirigente da CBPA

“Pode sair preso ainda hoje”, ameaça presidente da CPMI do INSS a dirigente da CBPA

Abraão Lincoln, chefe da Confederação da Pesca, permaneceu em silêncio diante das perguntas e é acusado de comandar uma entidade que teria desviado milhões de aposentados.

O silêncio falou mais alto na CPMI do INSS nesta segunda-feira (3). O presidente da confederação investigada por fraudes milionárias, Abraão Lincoln Ferreira da Cruz, preferiu calar-se diante da maior parte das perguntas — e quase saiu da sessão direto para a cadeia.

O clima azedou quando o presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), perdeu a paciência com as evasivas. “Quem mentir na CPMI vai receber voz de prisão. Se ele continuar omitindo informações, poderá ser preso ainda nesta noite”, disparou, deixando claro que o jogo de empurra não passaria impune.

Abraão Lincoln, presidente da Confederação Brasileira dos Trabalhadores da Pesca e Aquicultura (CBPA), chegou amparado por uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que lhe garantiu habeas corpus para não responder perguntas que pudessem incriminá-lo. E ele seguiu à risca a recomendação: praticamente não respondeu a nada.

O sindicalista, investigado por movimentar R$ 221,8 milhões descontados de aposentados e pensionistas do INSS, negou que a entidade seja uma “organização fantasma”, embora os números e a falta de transparência contem outra história.

Ao tentar se justificar, Abraão pintou um cenário de normalidade: disse que a CBPA nasceu de 12 federações e hoje reúne 21 entidades e mais de mil colônias e sindicatos de pescadores espalhados pelo país. “Estamos aqui para mostrar que existimos. Temos sede em 95% dos municípios onde atuamos”, afirmou, tentando transformar suspeita em credibilidade.

Mas a narrativa começou a afundar quando surgiram os dados da própria CPMI: das 188 mil reclamações de aposentados sobre descontos indevidos, apenas 921 tiveram reembolso. Um número tão baixo que nem o mais otimista dos pescadores conseguiria acreditar.

Abraão ainda admitiu que deu plenos poderes a Adelino Rodrigues Jr., apontado pela Polícia Federal como responsável por pagamentos suspeitos a familiares de ex-procuradores do INSS, para movimentar contas e administrar o “call center” da confederação. Segundo ele, “as devoluções eram dobradas”, mas os registros mostram que, se houve devolução, foi mais exceção do que regra.

Com o avanço das investigações, a Justiça Federal do Distrito Federal determinou o bloqueio dos bens de Abraão e da CBPA. Mesmo assim, o dirigente tentou manter o tom de inocência — ainda que cada resposta não dita tenha soado mais alta que qualquer justificativa.

O episódio reforça o que já se sabe sobre o escândalo batizado de “Farra do INSS”: uma rede de associações que drenou bilhões de reais de aposentados e pensionistas entre 2019 e 2024. Agora, com a CPMI em curso, a promessa de Viana ecoa pelos corredores de Brasília — e talvez o silêncio de Abraão Lincoln custe caro demais para continuar sendo sua principal estratégia.

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