
Cultura com palanque
Lula posa de mecenas do Oscar enquanto Wagner brilha por mérito próprio e alfineta Bolsonaro
Presidente tenta surfar no sucesso do cinema brasileiro, apesar de um governo marcado por gastos públicos e politicagem cultural
As indicações de filmes brasileiros ao Oscar 2026 viraram mais do que notícia cultural — viraram também palco político. Assim que os nomes foram anunciados nesta quinta-feira (22), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva correu para as redes sociais para celebrar o feito como se fosse obra direta do Planalto, ignorando o detalhe incômodo de que talento não nasce de decreto nem de verba pública liberada a rodo.
O filme O Agente Secreto apareceu em quatro categorias importantes, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator, com Wagner Moura. Já o diretor de fotografia Adolpho Veloso também garantiu espaço na premiação pelo longa Sonhos de Trem. Um feito histórico — não para o governo, mas para artistas que chegaram lá por competência, não por alinhamento político.
Wagner: talento, carreira e lacração calculada
Lula fez questão de exaltar Wagner Moura, destacando o “molho” e o talento do ator, que já levou um Globo de Ouro e agora disputa o Oscar. O elogio, no entanto, soa conveniente. Wagner brilhou por mérito próprio — e, como de costume, não perdeu a chance de usar o palco internacional para atacar Jair Bolsonaro, em mais um episódio de lacração aplaudida por plateias estrangeiras, mas distante dos problemas reais do Brasil.
Ainda assim, é inegável: Wagner Moura entrega atuação, currículo e reconhecimento internacional, algo que independe de governos, partidos ou discursos presidenciais. O sucesso é dele — e só dele.
Lula comemora, mas a conta fica com o contribuinte
Na tentativa de capitalizar politicamente o momento, Lula voltou a falar em “vitória da cultura brasileira”, como se o país vivesse um paraíso artístico graças ao seu governo. A ironia é evidente: enquanto o presidente celebra prêmios, o Brasil enfrenta rombos fiscais, juros altos e liberação farta de dinheiro público para projetos alinhados ideologicamente.
A retórica cultural serve como cortina de fumaça para um governo que prefere aplausos em cerimônias internacionais a resolver problemas internos. É fácil posar de patrono da arte quando a conta não sai do próprio bolso.
Arte apesar do governo, não por causa dele
O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, igualou Cidade de Deus no recorde de indicações brasileiras ao Oscar — um marco inegável. Mas vale o registro: o cinema brasileiro avança apesar do governo, não graças a ele.
A cerimônia do Oscar acontece em 15 de março, em Los Angeles. Até lá, Lula seguirá tentando se apropriar simbolicamente de um sucesso que não construiu, enquanto artistas seguem provando que talento sobrevive até aos governos mais contraditórios.
No fim, o Oscar pode até vir. Já a coerência política, essa continua longe de qualquer indicação.