
Quando a conta aperta, o discurso muda
Após anunciar reajuste de apenas R$ 18 para professores, Lula recua, muda o cálculo e libera aumento maior em pleno ano eleitoral
O governo Lula só resolveu “valorizar” os professores depois de tropeçar na própria promessa. Inicialmente, o reajuste do piso do magistério para 2026 seria quase simbólico: míseros R$ 18 por mês, um aumento de 0,37%, incapaz até de cobrir um café e um pão. A reação foi imediata. Professores, entidades e parlamentares criticaram duramente a proposta, considerada ofensiva para uma categoria que sustenta a educação pública do país.
Diante do desgaste — e convenientemente em ano eleitoral — o Planalto pisou no freio. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou uma Medida Provisória elevando o reajuste para 5,40%, fazendo o piso nacional saltar de R$ 4.867,77 para R$ 5.130,63. Um aumento bem mais apresentável, mas que só apareceu depois que a pressão política bateu à porta.
A cerimônia no Palácio do Planalto teve discurso ensaiado sobre “valorização da educação” e “correção de distorções”, com direito à explicação técnica sobre novo cálculo envolvendo inflação e receitas do Fundeb. Tudo muito bonito no papel — embora difícil ignorar que essa sensibilidade toda não existia quando o reajuste era de apenas dezoito reais.
O governo tenta vender a mudança como ajuste técnico, mas o roteiro é conhecido: anuncia-se um valor irrisório, mede-se a reação, e depois vem o recuo embalado como gesto de responsabilidade social. Para muitos professores, a sensação é clara: não foi valorização espontânea, foi constrangimento público.
No fim das contas, o aumento veio — não por convicção, mas por conveniência. E fica a pergunta que ecoa nas salas de aula Brasil afora: se não fosse o barulho, a crítica e o calendário eleitoral, o reajuste continuaria do tamanho de uma moeda?