De olho em Trump, União Europeia e Índia fecham megaacordo e criam maior zona de livre comércio do planeta

De olho em Trump, União Europeia e Índia fecham megaacordo e criam maior zona de livre comércio do planeta

Pacto histórico reúne quase 2 bilhões de pessoas, supera UE-Mercosul em tamanho e sinaliza afastamento estratégico dos EUA e da China

Depois de quase vinte anos de negociações arrastadas, a União Europeia e a Índia finalmente apertaram as mãos e selaram um acordo de livre comércio de proporções gigantescas. O momento não é coincidência: o avanço do tratado ganhou fôlego em meio ao recrudescimento das políticas tarifárias do governo Donald Trump, que voltou a pressionar parceiros comerciais com ameaças de novas taxas.

O acordo cria uma área econômica ainda maior do que a recentemente firmada entre a União Europeia e o Mercosul. Juntos, europeus e indianos passam a integrar um mercado que soma cerca de US$ 23,4 trilhões em PIB e 1,9 bilhão de habitantes, superando o pacto com os sul-americanos tanto em produção quanto, de forma esmagadora, em população.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, celebrou o feito nas redes sociais com entusiasmo pouco usual: “Concluímos o acordo de todos os acordos”, escreveu. Ao lado dela, em Nova Délhi, o presidente do Conselho Europeu, Antonio Costa, e o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, também trataram o pacto como um marco histórico.

Um acordo com recado geopolítico

Na prática, o tratado prevê a eliminação ou redução de tarifas para quase todo o comércio bilateral. A Índia aceitou cortar taxas sobre 96,6% dos produtos europeus, enquanto a União Europeia fará o mesmo com 99,5% das importações indianas ao longo de sete anos. A expectativa da Comissão Europeia é que as exportações do bloco para a Índia dobrem até 2032. O acordo também facilita a concessão de vistos, especialmente para estudantes indianos.

Mais do que números, o pacto carrega um claro recado político. Ele é o segundo grande acordo assinado pela UE em poucos dias — depois do tratado com o Mercosul — e reforça o esforço europeu para reduzir sua dependência econômica tanto dos Estados Unidos quanto da China, em um cenário global cada vez mais marcado por disputas tarifárias e protecionismo.

A Índia, por sua vez, tenta se livrar da imagem de economia fechada e compensar o impacto das tarifas de até 50% impostas por Trump, ao mesmo tempo em que busca equilibrar suas relações com potências como Rússia, EUA e União Europeia.

E o Mercosul nisso tudo?

Especialistas avaliam que o acordo UE-Índia não enterra o tratado com o Mercosul, mas muda o clima político. Para Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, o avanço desses pactos reflete um mundo mais instável, em que acordos comerciais voltaram a ser vistos como instrumentos estratégicos. Segundo ele, a pressão política pode acabar destravando tanto o impasse no Parlamento Europeu quanto as discussões judiciais que hoje cercam o acordo com os sul-americanos.

Já o professor Carlos Frederico de Souza Coelho, da PUC-Rio, vê o movimento com mais ceticismo. Para ele, o tratado com a Índia escancara uma hierarquia de prioridades da União Europeia e reduz a urgência política de fechar definitivamente o acordo com o Mercosul. Coelho aponta ainda uma contradição incômoda:
— A UE não teve grandes dificuldades para flexibilizar questões ambientais com a Índia. No caso do Mercosul, o problema real não é ambiental, mas a competitividade da agricultura brasileira. Isso expõe certa hipocrisia no discurso europeu.

Ainda assim, a avaliação é que os países do Mercosul devem tentar acelerar a ratificação do acordo em seus próprios parlamentos, aproveitando o novo cenário e a pressão de países como a Alemanha. O problema é que, na Europa, não há precedente recente de acordos comerciais colocados em prática sem o aval do Parlamento Europeu — um terreno jurídico nebuloso que pode atrasar tudo.

Um jogo de ganha-ganha — com ressalvas

Em conversa telefônica com o presidente francês Emmanuel Macron, o presidente Lula voltou a defender que o acordo UE-Mercosul é benéfico para ambos os lados. Já Narendra Modi tratou o pacto com a Europa como o maior da história indiana, destacando os ganhos para agricultores, pequenas empresas e para a confiança de investidores na terceira maior economia da Ásia.

No fim das contas, o acordo entre União Europeia e Índia simboliza mais do que abertura de mercados: ele revela um rearranjo silencioso das alianças globais, impulsionado pelo tarifaço de Trump e pela busca de novos equilíbrios econômicos em um mundo cada vez mais fragmentado.

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