
Democracia seletiva no STF: CPMI acha ligação entre Moraes, sua esposa e Vorcaro — e sigilo some do radar
Enquanto contatos e contratos milionários vêm à tona, Supremo recolhe documentos e reforça a sensação de proteção aos de cima
A chamada “democracia seletiva” do STF ganhou mais um capítulo indigesto. A CPMI do INSS, ao acessar dados do sigilo telemático do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e investigado pela Polícia Federal na Operação Compliance Zero, encontrou algo que escancara contradições difíceis de ignorar: contatos diretos do ministro Alexandre de Moraes e de sua esposa, Viviane Barci de Moraes, na lista pessoal do empresário.
Os documentos analisados pela comissão mostram que o número de Moraes aparece entre os contatos de Vorcaro. O mesmo ocorre com o telefone de Viviane Barci, advogada que manteve um contrato milionário com o Banco Master, estimado em R$ 129 milhões, para atuação junto ao Banco Central, Receita Federal e Congresso Nacional. Um acordo que, por si só, já levantava questionamentos públicos.
Quando a investigação chega perto do topo, o sigilo muda de endereço
Curiosamente — ou convenientemente —, no momento em que essas informações começam a circular, o STF decide retirar os documentos da CPMI. Pela determinação do ministro Dias Toffoli, o material deve ser enviado à Presidência do Senado, onde ficará guardado até uma decisão definitiva da Corte. O detalhe simbólico: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, nem integra a comissão.
Na prática, o que se vê é um movimento clássico: a investigação avança até encostar em nomes poderosos, e então os freios institucionais entram em ação. Tudo dentro da legalidade formal, mas distante da ideia de transparência que se exige quando o cidadão comum está no centro do processo.
Dois pesos, duas medidas
Não se trata de acusar culpados — isso cabe à Justiça. O problema é outro: o contraste gritante entre a rigidez aplicada a uns e a cautela extrema quando os holofotes se voltam ao próprio Judiciário. Para críticos, o episódio reforça a percepção de que há um sistema duro com adversários políticos e indulgente quando os envolvidos estão no topo da hierarquia do poder.
Enquanto aposentados, investigados e parlamentares são expostos em detalhes, os vínculos sensíveis são retirados do alcance da CPMI e colocados sob a guarda de quem não investiga. O resultado é previsível: mais desconfiança, menos credibilidade.
No fim, o recado que fica para a sociedade é amargo: a democracia funciona — mas nem sempre para todos do mesmo jeito.